Os guerrilheiros talibãs anunciaram na terça-feira a sua retirada de Kunduz, no norte do Afeganistão, depois de o exército afegão ter  recuperado o controlo da cidade a 1 de outubro. Este reduto insurgente volta, assim, às mãos do governo, mas metade da população já lá não está.

De porta em porta, os rebeldes perseguiram os residentes, acusando-os de trabalharem com as forças de segurança, e montaram uma caça a ativistas e jornalistas. A violência alastrou pelas ruas e milhares viram-se obrigados a fugir.

Quando os talibãs tomaram a cidade, a 28 de setembro, prometeram proteger os civis e as propriedades, apresentando-se como os libertadores de Kunduz. Mas o que se passou depois, durante os três dias de ocupação, foi um cenário de terror.

Os habitantes contaram à Associated Press que depressa a cidade se tornou num palco de extrema violência, com as milícias a pilhar casas e lojas e a matar, indiscriminadamente, os que se cruzavam no seu caminho.

Foi o que aconteceu em casa do vizinho de Shah Bibi. Os rebeldes entraram na residência e abateram a tiro cinco rapazes. Shah Bibi fugiu, com os seis filhos, de Kunduz para Cabul.
 

Os corpos jazem em todo o lado”.


Cabul foi também a cidade para onde Fauzia, uma ativista local, escolheu fugir. Responsável por uma organização dedicada à defesa dos direitos das mulheres, escondeu-se na cave quando os talibãs lhe bateram à porta. À Associated Press explicou que o seu medo não era morrer, mas ser violada.

A cidade recordou, de forma repentina, as violentas leis talibãs que vigoraram quando as milícias estavam no poder, entre 1996 e 2001. Na altura, as mulheres não podiam trabalhar nem ir à escola e só estavam autorizadas a sair de casa com burka e acompanhadas de um familiar do sexo masculino. Alegados adultérios eram penalizados com apedrejamentos.

Geeta Bashardost, que trabalhou numa organização internacional para as mulheres, diz que, durante estes três dias, Kunduz ficou “sem gente normal”. E havia uma lista de nomes a abater.

“Só havia talibãs e motoqueiros com as caras tapadas, ouviam-se músicas talibãs a tocar, vindas sabe-se lá de onde.  Eles tinham uma lista de nomes de pessoas, incluindo ativistas, advogados, e os apoiantes locais das milícias – e eram muitos – ajudaram-nos, dizendo-lhes, casa por casa quem lá vivia.”

Os media também não foram poupados. Os talibãs pilharam os escritórios, destruíram os equipamentos e os repórteres tiveram de fugir.

As Nações Unidas estimam que cerca de metade dos 300 mil residentes de Kunduz fugiram da cidade.

As forças afegãs têm reunido esforços para combater os radicais desde que os Estados Unidos e a NATO concluíram a sua missão no Afeganistão. Mas as negociações de paz, mediadas pelo Paquistão, quebram no início do ano após o anúncio da morte do líder talibã "Mullah" Mohammad Omar.

Apesar de breve, pois foram apenas três dias, a tomada de Kunduz pelos talibãs foi a maior conquista militar dos rebeldes em 14 anos de guerra. A ofensiva expôs a fragilidade das forças de segurança do Afeganistão e afetou a confiança do país no presidente Ashraf Ghani, eleito há um ano com promessas de acabar com o conflito.