As consequências imediatas do bombardeamento ao hospital dos Médicos Sem Fronteiras, em Kunduz, no Afeganistão, são menos dramáticas do que as que ainda não são visíveis.

Luciano Pereira, um médico português que trabalhou como anestesista nesse hospital, em 2013, conta que as instalações devastadas pelas forças norte-americanas faziam parte da única unidade hospitalar da região. Esta dava auxílio diário a dezenas de afegãos, muitos feridos por causa dos conflitos no local, e que agora podem ficar sem assistência médica.
 

“É importante ter em conta o que fica para trás e que não é tão visível. Para além das vítimas mortais deste ataque há muitas pessoas que vão morrer por falta de cuidados médicos”, afirmou Luciano Pereira, em entrevista à TVI24.


Luciano Pereira sabe do que está a falar. Trabalhou neste hospital entre outubro e novembro de 2013, pelo grupo humanitário Médicos do Mundo, como anestesista. Apesar de ter prestado serviços no Afeganistão apenas dois meses, passaram-lhe pelas mãos “200 ou 300 pessoas” que necessitavam de cirurgia.

As imagens divulgadas depois do ataque mostram que o edifício principal está totalmente destruído. A reabilitação das instalações pode demorar vários meses. Para Luciano Pereira, isto pode significar que muitas pessoas não terão acesso a apoio médico, “já para não falar da qualidade dos tratamentos, porque os serviços Médicos Sem Fronteiras têm padrões de alta qualidade”.

O número de baixas do país devastado pela guerra já era acentuado há dois anos. Contudo, o médico conta que “por vezes ouvia-se tiros e havia bombas nos carros, mas as pessoas faziam a sua vida normal”. Ao centro hospitalar chegavam os feridos desses ataques, que se intensificaram depois da eleição do presidente Ashraf Ghani, em 2014.
 

“Pelo que vi das imagens, parece-me que todo o edifício maior do hospital está devastado, o que é grave porque aqui havia consultas externas e salas de emergência”.


Os danos podem atingir proporções ainda maiores, uma vez que ninguém esperava o atentado, muito menos por parte das forças norte-americanas.

A justificação para o ataque aéreo começou por ser dada pelas autoridades afegãs, afirmando que os talibãs usavam o hospital dos Médicos Sem Fronteiras como local estratégico contra as forças do governo e que, naquele momento, 200 membros do grupo se encontravam escondidos nas instalações. O número desceu abruptamente quando o ministro do Interior afegão desculpou o ataque dizendo que este foi necessário, pois estavam lá 10 a 15 terroristas.

Mas, para Luciano Pereira, a presença de membros do grupo extremista é altamente improvável. As medidas de segurança eram tão apertadas no hospital que só era permitida a entrada a membros do “staff médico e pacientes”.

“O ataque foi imprevisível. São muito exigentes em termos de segurança. Havia medidas de segurança muito apertadas. Tínhamos diretivas muito restritas”, contou, acrescentando que só pôde sair um vez do hospital, para ver o mercado da cidade, e que os seguranças só o deixaram estar uma hora no local. “Até tínhamos seguranças não armados à porta”.


Para Luciano Pereira, é possível que tenha havido uma falha na segurança, mas nada justifica o ataque às instalações hospitalares do grupo humanitário, que, afinal de contas, se tratou de uma violação da lei humanitária internacional.

O ataque aéreo ao hospital dos Médicos Sem Fronteiras, na cidade de Kunduz, no Afeganistão, está a causar a revolta da comunidade internacional e já foi condenado pela ONU.

O bombardeamento perpetrado pelos EUA, que vitimou 19 pessoas, deixando outras 37 feridas, foi considerado “indesculpável” e “condenável”. As forças da coligação apelidaram-no de “dano colateral”. 

“Independentemente da força do ataque, este tem de ser condenado. O hospital é um serviço humanitário onde se tratam as pessoas com base nos ferimentos e não na etnia e na religião”, disse o médico.