Há quem já fale em milagre, mas para os entendidos na matéria pouco há de sobrenatural no facto de 103 pessoas terem sobrevivido à queda de um avião no México.

Não porque as probabilidades de sofrer um acidente aéreo sejam menores que num transporte terrestre, mas porque as circunstâncias da queda do Embraer 190 e a tecnologia do próprio avião podem aumentar as probabilidades de sobrevivência.

Cada caso é um caso, defende o especialista consultado pela BBC, mas as consequências dependem essencialmente de factores como a existência ou não de fogo, a altitude a que o acidente ocorre e a sua localização.

A localização é determinante, não por causa do tipo de superfície de contacto, mas porque está associada à maior ou menor rapidez de resposta dos meios de socorro.

Por exemplo, no acidente no rio Hudson [janeiro de 2009, em Nova Iorque], havia equipas de salvamento disponíveis no imediato. Mas se a queda fosse no meio de um oceano haverá certamente mais problemas em resgatar as pessoas. Tal como não haveria ninguém para ajudar no meio do deserto do Sahara”, explicou o consultor aéreo Adrian Gjertsen.

Não faltam conselhos na Internet sobre como aumentar as hipóteses de sobreviver a um acidente aéreo, como viajar na parte de trás do avião ou nunca tirar o cinto de segurança, mas, para o especialista, não é tão simples assim.

Uma situação que causa muitos problemas é o facto de os passageiros quererem aceder às bagagens antes de abandonarem o avião. Isso representa um problema de segurança, não só para os próprios como para os restantes. Quando algo corre mal, é preciso sair da situação.”

O melhor a fazer é ter noção do ambiente que o rodeia, ser rápido na saída e seguir os conselhos da tripulação.

É preciso sublinhar que a aviação é muito segura. E o objetivo primeiro é sempre impedir que algo aconteça”, apontou Gjertsen.

No caso do Embraer 190 da AeroMéxico, o avião caiu pouco depois de levantar voo, ou seja, ainda a baixa altitude, permitindo aos ocupantes saírem pelo próprio pé, apesar de se ter incendiado.

Também o consultor para a segurança aérea, David Gleave, em declarações à NBC, rejeitou a ideia de milagre, apontando a baixa velocidade do impacto como a tecnologia do avião como as responsáveis pela ausência de vítimas mortais.

Não é um milagre. Trabalhámos muito e arduamente para garantir que um evento como este não deixa sequelas, para que os bancos não escorreguem para a frente com o impacto, para que os membros estejam protegidos. A segurança dos passageiros não é acidental”, defendeu.

Gleave destacou, também, que não é por acaso que não há obstáculos nas pistas dos aeroportos, para que as pessoas possam sair em segurança em caso de aterragem forçada. Além disso, sublinhou, os aviões modernos estão certificados para serem evacuados em 90 segundos.

O E190 é muito moderno e tem todas as campainhas e alarmes para alertar os pilotos para a existência de um problema mecânico ou uma má configuração do avião na descolagem”, analisou, acreditando que os investigadores deste acidente vão focar-se nas condições atmosféricas no momento do acidente, como os ventos fortes, chuva intensa e granizo.