O principal opositor de Dilma Rousseff nas últimas eleições, Aécio Neves, presidente do Partido Social-Democrata Brasileiro (PSDB) disse, esta terça-feira, em entrevista exclusiva à TVI, que "a Presidente perdeu toda e qualquer condição de tirar o Brasil da gravíssima crise na qual o seu Governo, esse ciclo do PT [Partido dos Trabalhadores], mergulhou" o país.

Aécio Neves encontra-se em Lisboa  a fim de participar no 4.º Seminário Luso-brasileiro, que decorre na Faculdade de Direito, onde cerca de meia centena de brasileiros protestaram, esta semana, contra a tentativa de destituição da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que consideram um golpe de Estado.

"Acredito que, dentro de pouco tempo, o Brasil terá um novo Governo"

Para o presidente do PSDB, as mudanças políticas estão em curso e são inevitáveis. "Acredito que em meados do mês de abril teremos um impeachment aprovado na Câmara dos Deputados", que deverá ser posteriormente aprovado pelo Senado Federal.

Na entrevista, Aécio Neves frisou que o Brasil não está a atravessar nenhum golpe de Estado e explicou que os processos que preveem um novo Governo estão assentes na Constituição e, por uma questão de simplicidade e rapidez, o impeachment deverá ser o decisivo.

Ao contrário do que a propaganda petista tem alardeado, o Brasil não está prestes a sofrer nenhum golpe político. A nossa lei é a Constituição”, disse frisando que essa é “a única arma para enfrentar todo esse desgoverno, essa crise moral, económica e social na qual estamos mergulhados é a constituição".

"70% da população brasileira quer o afastamento da Presidente"

Aécio Neves considera que Dilma Rousseff perdeu a credibilidade e confiança junto do povo brasileiro. “A Presidente perdeu toda e quaisquer condições de resgatar, o que é essencial para qualquer Governo, a confiança, credibilidade” e, por isso, o senador do PSDB não vê outra alternativa senão a convocação de eleições.

"Hoje mais de 70% da população brasileira quer o afastamento da Presidente da República", justificou.

Nos últimos três anos, o Brasil tem registado um crescimento económico negativo. "A emoldurar toda essa crise politica, há uma crise social que levou hoje mais de 10 milhões de brasileiros ao desemprego, praticamente a população de Portugal desempregado", disse o senador do PSDB enfatizando os jovens cuja situação de falta de trabalho. "Temos dados que mostram que o desemprego já ultrapassou os 20 por cento [dos jovens até aos 24 anos] e continua a crescer", disse.

A crise política do Brasil tem, sob a explicação de Aécio, três soluções possíveis. A primeira, passa pela renúncia da própria presidente, mas Dilma Rousseff já disse que não se irá demitir. Outra das possibilidades passaria por afastar a Presidente da República, se ficar provado o "crime de responsabilidade", previsto no artigo 86 da Constituição brasileira.

"É isso que a Câmara dos Deputados está a discutir este momento, e a 14 ou 15 abril deverá concluir se Dilma cometeu ou não crime de responsabilidade", acrescentou Aécio.

Por fim, a governação petista poderá terminar em consequência das sucessivas denúncias ao Tribunal Constitucional relacionadas com os donativos da Petrobras a favor da campanha eleitoral da Presidente da República.

"Este Governo tirou a capacidade das pessoas sonharem com um futuro melhor"

Segundo o presidente do PSDB, “o envidamento já atinge mais de 60 milhões de brasileiros, que estão com pelo menos uma prestação em atraso há mais de 90 dias” e hoje os brasileiros perderam a esperança por um futuro melhor.

O que acontece hoje no Brasil é algo jamais visto na nossa história. São cargos, Ministérios de áreas vitais para a vida das pessoas serem distribuídos como se distribui bananas numa feira em troca de um ou dois votos. É a não política. É a negação da política", alertou.

Por este motivo, o PSDB ambiciona uma reforma política profunda no Brasil que filtre o número de partidos políticos – atualmente existem 35 – e traga mais valor à governação. "Temos que fazer uma reforma politica que estabeleça cláusula de barreira. Partido político tem de ter representação no segmento da sociedade, não pode ser uma confraria entre amigos", disse.

Nas palavras de Aécio, o PSDB considera duas soluções possíveis para esse novo ciclo no Brasil. Por um lado, o Tribunal Eleitoral convocará novas eleições, e isso "seria para o ideal, mas muitas vezes o bom é inimigo do ótimo". A solução mais rápida para "aprovar uma agenda de reformas que permitam o reinício de um novo tempo, de confiança, de volta dos investimentos e do emprego", é o impeachment.

"O PT é mais perigoso no Governo do que na oposição"

A possibilidade de mobilização de apoiantes do Partido dos Trabalhadores nas ruas e em manifestações não assusta Aécio. O opositor ao Governo petista afirma não ignorar os factos. "Temos de estar preparados, mas diria que o PT é mais perigoso no Governo do que na oposição".

Com a governação do PT, "o Brasil perdeu a capacidade de competir” e essa é, nas palavras de Aécio Neves, a maior consequência do legado de Lula e Dilma e, por isso, o próximo Presidente, seja ele qual for, “terá muito trabalho".

O estímulo que foi a marca do segundo mandato Lula/Dilma, com aquilo que chamara uma nova matriz económica com crédito farto e interno, mas sem perspetivas de sustentabilidade no futuro, nos trouxe a uma situação económica quase de pré-insolvência", sublinhou.

Sem confirmar se será ou não candidato pelo PSDB nas eleições de 2018, Aécio garante "o que não falta ao PSDB são quadros qualificados".

Vamos estar preparados para vencer as eleições em 2018, pelo bem do Brasil".

Operação "Lava Jato": "é positivo par o Brasil" que tudo seja investigado em profundidade"

Questionado sobre a "Operação Lava Jato", onde vários políticos e empresas brasileiras são suspeitos de crimes como lavagem de dinheiro e corrupção, Aécio sublinha que o processo é positivo para o país e neste momento "não há força humana que possa contrariar" a investigação, "tudo tem de ser investigado em profundidade".

Por outro lado, o membro da oposição ao governo de Dilma Rousseff considera negativo a presidente ter dispensado a “defesa técnica para fazer o jogo do cerramento político, da divisão de classes”.

Essa é uma tendência universal dos regimes populistas. Quando fracassam, o discurso passa a ser esse, da divisão entre nós e eles", disse.

Mas as críticas de Aécio não ficam por aqui. O senador brasileiro acrescentou: "Aqueles que eles dizem defender são os primeiros a sofrer os impactos da sua irresponsabilidade, da corrupção desenfreada, da baixa qualificação dos seus Governos porque o desemprego, que cresce de forma vertiginosa no Brasil, pune principalmente os que menos têm".

Sobre o aparecimento do seu nome no âmbito das investigações da "Lava Jato", Aécio remete essas citações para os “criminosos ligados ao PT” e desvaloriza-as totalmente.

Não tem envolvimento algum. Existem citações de alguns criminosos ligados ao PT que obviamente atacam o principal líder da oposição", disse.

Em 2014, Aécio disputou as eleições presidenciais com Dilma Rousseff. "Não havia uma semana em que o PT não lançasse uma acusação em relação a mim e a o meu partido. Obviamente nenhuma delas foram provadas, o que mostra que esse é o jogo político".