O advogado de Salah Abdeslam, o único suspeito vivo dos atentados terroristas de 13 de novembro em Paris, e que esta quarta-feira foi extraditado para França, onde será julgado, depois de ter sido já acusado, não esconde o desprezo que tem pelo cliente. Numa entrevista concedida ao jornal francês Libération nas vésperas da transferência de Abdeslam da Bélgica para França, Sven Mary, habituado a defender criminosos com ligações a células terroristas e à máfia, descreve o seu cliente como um “idiotazeco”. 

Salah Abdeslam “é um imbecil de Molenbeek oriundo da pequena criminalidade, mais do que um líder, é um seguidor. Ele tem a inteligência de um cinzeiro vazio, é de um vazio abissal. É o exemplo perfeito da geração GTA [Grand Theft Auto] que acredita que vive dentro de um jogo de consola. Perguntei-lhe se alguma vez tinha lido o Corão, coisa que eu pessoalmente fiz, e ele respondeu-me que tinha lido uma interpretação na Internet. Para mentes simples, a Internet é perfeita, é o máximo que conseguem compreender”, disse o advogado belga.

Sven Mary explicou que foi através da Internet que o jovem de 26 anos se radicalizou: “Há um ano andava nas discotecas de Amesterdão. A única explicação que encontro é a propaganda na Internet, que dá a impressão de que os muçulmanos são vítimas de injustiças”.

O advogado de 43 anos admitiu que, por ter aceitado defender Salah Abdeslam, é mal visto aos olhos da sociedade.

“Os árabes felicitam-me, enquanto os não árabes lançam-me olhares de ódio. Isso é muito pouco saudável”, referiu.

Na entrevista, Sven Mary falou sempre do cliente com um sentido depreciativo e chegou mesmo a compará-lo a um antigo cliente, Abdelkader Hakimi, que terá estado envolvido nos atentados de Madrid de 11 de março de 2004, para se notarem as diferenças entre os dois terroristas.

O advogado belga contou que Hakimi foi condenado em 2006 a oito anos de prisão pela ligação aos atentados de Madrid e, depois de ser posto em liberdade, foi para a fronteira síria, onde abriu uma escola de combate. O objetivo pode ser o mesmo, mas, “tinha outro temperamento, era um autêntico combatente que tinha estado na guerra na Bósnia”, defendeu Sven Mary.

“Tenho defendido muitos criminosos graves. É outra coisa: são gente com quem se pode falar, que tem uma história. Não é o caso destes miúdos de Molenbeek”, acrescentou.

Sven Mary deixou claro na entrevista que a relação com o cliente não é boa.

“Ele não confia, claramente, em mim. É preciso tempo para estabelecer uma relação de confiança”, revelou.

O advogado sublinhou que se encontrou com Salah Abdeslam cerca de “sete ou oito vezes” durante duas horas e meia, no estabelecimento prisional de Bruges, na Bélgica, onde esteve nas primeiras semanas depois de ser detido, a 18 de março.

Habituado a defender grandes criminosos, incluindo suspeitos de terrorismo e de ligações mafiosas, Sven Mary defendeu que “toda a gente tem direito à defesa” e que não se preocupa com o seu “índice de popularidade”. Mas o advogado admitiu que, por um momento, hesitou em aceitar o pedido do irmão de Salah, Mohamed Abdeslam, para que fosse advogado do suspeito.

“Se eu soubesse dos atentados de Bruxelas nunca teria aceitado o caso”, admitiu.

Salah Abdeslam foi detido a 18 de março, em Bruxelas, e quatro dias depois, a 22, explodiam duas bombas no aeroporto de Bruxelas e outra no metro da cidade.

Apesar da transferência de Salah Abdeslam esta quarta-feira para França, país que passará a tomar as rédeas do processo, Sven Mary irá continuar a colaborar com o novo advogado do suspeito, mas não escondeu que ficou satisfeito, e até aliviado, por passar a pasta ao colega francês.

“Não é fácil aceitar uma defesa que nada me traz, se não porcarias: fui agredido várias vezes, seja verbal, seja fisicamente. Dois tipos fizeram-me uma espera à porta do meu escritório e houve uma troca de murros, mas eu sei defender-me. Em várias ocasiões, a polícia teve que escoltar as minhas filhas à escola”, revelou o advogado.

Virando-se depois para o interlocutor do Libération, Sven Mary acrescentou: "Olhe para o ódio das pessoas ao nosso redor, como se eu fosse Abdeslam...".