Milhares de documentos com nomes, moradas e números de telefone de 22 mil jihadistas do Estado Islâmico foram roubados por um ex-membro da organização, descontente com a liderança do EI, e entregues a um jornalista da Sky News.

O consultor internacional de segurança, João Rucha Pereira, indicou à TVI que no início de 2015 havia 23 portugueses ou luso-descendentes associados ao grupo terrorista, número que não deve diferir em muito dos que figuram nesta nesta lista combatentes recrutados pelo Estado Islâmico. No "Jornal da Uma", João Rucha Pereira disse que desses, apenas 10 estarão ainda vivos.

O inventário divide-se entre alguns nomes já conhecidos pelas autoridades – e pelos media – e outros desconhecidos até ao momento. Alguns estão numa lista intitulada “mártires”, revelando a identidade de indivíduos interessados em levar a cabo ataques suicidas, e treinados para o fazer.

São homens e mulheres de 51 países que tiveram de revelar os seus dados pessoais e responder a um questionário com 23 perguntas, incluindo a forma como chegaram à Síria e ao Iraque. Muitos são de países ocidentais, como os EUA, o Reino Unido e o Canadá, mas também de Portugal. Alguns já tinham passado por países como o Iémen, a Líbia e o Afeganistão, e a maioria conseguiu entrar na Síria sem problemas, e regressar a casa sem controlos.

A Polícia Judiciária não teve ainda acesso direto à lista, mas fonte da PJ disse que está a recolher informação sobre o documento, que já tinha sido obtida pelos serviços secretos alemães, em 2013.

O governo alemão acredita que se trata dos mesmos documentos e que a sua posse vai facilitar as investigações e ajudar a perceber a estrutura e modo de funcionamento da organização.

A Sky News destaca quatro nomes na lista já conhecidos pelas autoridades: Abdel Bary, um rapper inglês que entrou para o EI em 2013 e cujo paradeiro é desconhecido, Junaid Hussain, morto num ataque de um drone, a sua mulher Sally Jones - juntos planeavam ataques no Reino Unido –, e Reyaad Khan, que entrava em vídeos de propaganda do grupo e foi entretanto morto.

Os documentos estavam num cartão de memória e foram roubados por um homem que se identifica como Abu Hamed, um ex-membro do Exército Livre Sírio, que se juntou ao EI, mas não está satisfeito com o rumo que o grupo tomou. O cartão estava na posse de um membro da polícia do EI, encarregue de proteger os segredos do grupo terrorista, e que raramente não o trazia consigo.

Hamed queixa-se que a liderança está nas mãos de antigos homens leais ao partido de Saddam Hussein, e que as leis islâmicas nas quais acredita não são cumpridas dentro da organização. Por outro lado, Hamed contou que o EI, as forças curdas e o Governo de Bashar Al-Assad trabalham juntos contra a oposição moderada síria.

O homem, que concordou encontrar-se com o jornalista da Sky News na Turquia, contou que o grupo terrorista está a pensar mudar a sua capital de Raqqa para o deserto sírio, e mais tarde para o Iraque.

Sobre os ataques terroristas no mundo ocidental, Hamed disse que o grupo está a reorganizar a sua base de operações no estrangeiro, e planeia continuar a realizar ataques de grande escala em países do ocidente, ao estilo dos que aconteceram em Paris, em novembro.

Ministra garante que a lista está a ser analisada 

Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa

A ministra da Administração Interna já garantiu que as autoridades portuguesas estão a analisar a lista a que a Sky News teve acesso, mas referiu que não é de esperar “nenhuma novidade” quanto a cidadãos portugueses.

Neste momento as autoridades portuguesas estão naturalmente a trabalhar com as suas congéneres para analisar não só a veracidade dessa lista, como o seu conteúdo (…) Todos sabemos que existem alguns nomes de lusodescendentes que aderiram às fileiras do Daesh (acrónimo do autoproclamado Estado Islâmico) e que estão perfeitamente monitorizados pelas nossas autoridades, e portanto aí não há nenhuma novidade que possamos esperar”, afirmou Constança Urbano de Sousa, à margem de uma reunião de ministros do Interior da União Europeia.

A ministra afirmou que a questão da cooperação e troca de informações entre os Estados-membros “nem sequer foi um tema que tivesse levantado qualquer alarido” na reunião de hoje em Bruxelas, e garantiu que “as autoridades portuguesas estão a trabalhar com as suas congéneres de acordo com os mecanismos normais de cooperação internacional, que estão perfeitamente estabelecidos e a funcionar”.

Neste momento, a informação que eu tenho é que as autoridades portuguesas têm acesso a essa lista, e estão neste momento a analisar”, concluiu.