Já é um "titular" na classe política da Turquia. Ocupa a mesma posição, praticamente sem interrupções, há mais de uma década. Foi ministro dos Transportes de 2002 a 2007, de 2007 a 2011 e de 2011 a 2013. Em 2014, concorre à câmara municipal de Esmirna, a terceira maior cidade do país, embora sem sucesso. Regressou ao ministério - que também agrega as pastas dos Assuntos Marítimos e das Comunicações - em novembro do ano passado, no seguimento das últimas eleições gerais ganhas pelo "crónico" Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla turca).

Mas agora os voos são outros e sobe na carreira. Chama-se Binali Yildirim e é o provável futuro primeiro-ministro da Turquia, o 27º da República, sucessor de Ahmet Davutoglu, que se demitiu ainda no início do mês, devido a uma crescente tensão com o Presidente, Recep Tayyip Erdogan. E o termo "provável" adequa-se na perfeição, uma vez que Yildirim será o único candidato à liderança do AKP a apresentar-se no congresso extraordinário do partido com maioria parlamentar, já neste domingo, dia 22 de Maio.

"A candidatura (de Binai Yilidirim) à liderança resulta de um período de consulta e de um amplo consenso", disse Omer Celik, porta-voz do AKP

Todavia, a nomeação de Yildirim ultrapassa, porém, o seu próprio cargo de primeiro-ministro. Ela é entendida como uma oportunidade para Erdogan fortalecer o poder na presidência.

Porquê? Ora, o (ainda) Ministro dos Transportes é um dos mais fiéis aliados do Presidente. A amizade de ambos terá começado em Istambul, por volta de 1994, o ano em que Erdogan chegou à liderança da câmara municipal e Yildirim tornou-se dirigente da IDA, uma empresa de "ferries".

Em 2001, fundam o AKP, juntamente com Abdullah Gul e Bulent Arinç. No ano seguinte, o partido sobe ao poder com maioria absoluta e começa a história que já se conhece. Yilidirim torna-se Ministro dos Transportes em três governos consecutivos - todos chefiados por Erdogan.

Lembra-se de quando a Turquia bloqueou o Youtube e o Twitter em Março de 2014? Por causa de uma gravação pirata em que dirigentes governamentais discutiam a possibilidade de uma invasão militar à Síria? Pois, a decisão foi de Yilidirim, através da Autoridade de Telecomunicações da Turquia, que responde ao executivo.

"Pazar günü yapılacak 2. Olağanüstü Kongrede Genel Başkan Adayımız Sayın Binali Yıldırım"#KutluYürüyüşeDevam pic.twitter.com/b1fKpAJnq1

— AK Parti (@Akparti) May 19, 2016

Assim, os especialistas acreditam que a missão principal de Yilidirm passará por favorecer o plano de Erdogan, há muito desejado, em mudar a constituição e consolidar um sistema presidencialista - e com isso acumular um poder suficiente para controlar o executivo e a agenda política do país. Aliás, o chefe de estado voltou a vincar estas pretensões, de forma peremptória durante um discurso em Istambul, afirmando que "não há volta a dar" e apelando à realização de um referendo.

"Uma nova Constituição e um sistema presidencialista são necessidades urgentes", declarou Erdogan, no passado dia 6 de Maio.

Também na opinião dos especialistas, a mudança para um regime presidencialista pode trazer ainda mais autoritarismo. Especialmente numa altura em que a presidência de Erdogan tem sido marcada pela restrição de direitos fundamentais. A liberdade de imprensa, por exemplo, tem sido um dos alvos mais notórios, ainda para mais quando vários jornais da oposição foram encerrados pelo poder político nos últimos seis meses, tal como certos canais televisivos. O caso mais recente envolveu o jornal Zaman e o grupo Feza Media Group, ao qual pertence, depois de terem caído sob controlo do governo. Por outro lado, a justiça já abriu mais de 1800 casos contra pessoas que insultaram Erdogan, desde que este chegou a Presidente, em 2014. E no último relatório sobre os índices de liberdade de imprensa no mundo, compilado pelos Repórteres Sem Fronteiras, a Turquia ficou na 151º posição, entre países como Tajiquistão e a República Democrática do Congo.