O Governo Regional da Madeira estima que 4.500 emigrantes na Venezuela regressaram à região desde 2016, ano em que a instabilidade socioeconómica e política se agravou naquele país, e prevê que o fluxo prossiga no decurso deste ano.

Estamos conscientes que o fluxo pode continuar com este ritmo e, acima de tudo, enquanto não se vislumbrarem melhorias do ponto de vista económico e social no país de origem", disse à Agência Lusa o secretário regional da Educação, Jorge Carvalho, que tutela o Centro das Comunidades Madeirenses e Migrações.

Na segunda-feira, passa um ano da eleição da assembleia constituinte da Venezuela, um processo revolucionário do regime de Nicolás Maduro que acelerou ainda mais a crise económica e os receios da população.

Atualmente, 2.300 emigrantes regressados da Venezuela, onde residem cerca de 300 mil madeirenses (três gerações), estão inscritos no Serviço Regional de Saúde e 2.000 no Instituto de Emprego, ao passo que 670 crianças e jovens frequentam as escolas da região.

Por outro lado, cerca de 180 agregados familiares estão inscritos no Instituto de Habitação e 574 beneficiam de apoios sociais.

"Estes são os dados concretos e objetivos", disse Jorge Carvalho, sublinhando que muitos emigrantes enfrentam também dificuldades ao nível da língua e das equivalências para ingresso no ensino superior e reconhecimento de habilitações.

O Governo Regional desenvolveu, entretanto, mecanismos de ligação entre os diversos serviços para agilizar a capacidade de resposta às solicitações dos emigrantes e conta, por outro lado, com 1,5 milhões de euros do Governo da República (ainda não disponibilizado) para apoio social, bem como a cobertura de um terço dos encargos com a saúde, até ao máximo de um milhão de euros.

"Ainda estamos a apurar os mecanismos de validação das despesas e de transferência [das verbas] para a região", explicou Jorge Carvalho, vincando que, até ao momento, a região autónoma tem assumido todas as despesas.

O apoio prestado pelo executivo regional é, de resto, reconhecido pelos emigrantes, conforme destaca Olavo Manica, fundador e ex-presidente do Centro Social das Comunidades Madeirenses, um clube de convívio localizado nos arredores da capital madeirense.

"De uma forma geral, as pessoas não têm razões de queixa, são bem atendidas se forem a uma instituição do Governo, que as ajuda e orienta", disse à Agência Lusa, lembrando, no entanto, que "se fosse há cinco anos, era mais complicado devido ao Programa de Assistência Económica e Financeira".

Olavo Manica, antigo empresário na Venezuela, salienta a ação do executivo nos domínios da Educação, Saúde, Segurança Social e Economia e elogia também a posição do Governo da República relativamente ao regime na Venezuela, observando que "Portugal tomou consciência" [da gravidade da situação] e que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva, tem agido de "forma firme".

O apoio do Governo Regional aos emigrantes é também reconhecido por Agostinho Ferreira Castro, natural do Funchal, que aos 17 anos partiu para a Venezuela à procura de melhor sorte e agora, que regressou, diz que a adaptação "têm corrido às mil maravilhas".

Agostinho Castro investiu num pequeno supermercado e agora acompanha, à distância, a vida das duas filhas, que ficaram no país, porque a fábrica de tintas e negócios que lá tem já os deu como perdidos.

"A posição do Governo Regional é muito simples: vamos fazer tudo e continuamos a fazer tudo para apoiar os nossos conterrâneos que regressam da Venezuela em situação de dificuldade", afirmou à Agência Lusa do chefe do executivo, acentuando querer que "estas pessoas se sintam em casa e estejam plenamente integradas".

Miguel Albuquerque sublinhou também que estão a ser feitas diligências junto das instâncias nacionais no sentido de "desburocratizar um conjunto de processos relacionados com as equivalências" e vincou que "é um ato de civilização e de cidadania ajudar quem necessita".

Venezuelanos em Coimbra sem perspetiva de regressarem ao seu país

Venezuelanos que estudam ou estudaram na Universidade de Coimbra saíram do país sem intenção de regressarem. Em Portugal, encontraram solidariedade, mas também alguns bloqueios.

Enrique saiu da Venezuela há três anos. A situação no país "estava um bocado complicada", mas ainda ganhava dinheiro com a sua empresa, na área da informática. Foi a gravidez da sua mulher e as perspetivas de que tudo ficaria ainda pior que decidiu fazer as malas e "fugir", em abril de 2015.

Um conhecido seu já tinha sido alvo de sequestro e sentia que poderia ser o próximo. "O dinheiro até era suficiente, mas não havia medicamentos, não havia comida. Mesmo o pão já estava a faltar nas padarias", conta à Lusa Enrique, de 32 anos, que optou por não dar o seu nome completo.

"Simplesmente, fechei a empresa, deixei a casa fechada e vim", diz.

Ele e a mulher estão a frequentar o curso de português para estrangeiros na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) com o objetivo de ingressarem no próximo ano no ensino superior português.

Para viver, socorrem-se das poupanças que tinham e de algum trabalho ?freelance' de Enrique, refere.

"Portugal é quase como um cantinho de céu", sublinha o venezuelano, que escolheu Portugal pela familiaridade que já tinha com o país.

Quando a agência Lusa pergunta a Enrique se pretende regressar à sua terra natal, a mulher interrompe a conversa e diz, de forma taxativa: "Não, não, não, não".

A decisão de viver cá, vinca o venezuelano, "é irreversível. Não há nada para fazer na Venezuela".

Os meus pais estão na Venezuela e ainda não conhecem a minha filha e nem vão conhecer, porque como são idosos não vão conseguir vir até cá e nós, em nenhuma circunstância, levamos a nossa filha à Venezuela", sublinha.

No entanto, nem tudo em Portugal são rosas. "É difícil vir para Portugal. Portugal devia assumir os venezuelanos como refugiados. As pessoas fogem do país", diz, defendendo que o Governo português poderia "ajudar um pouco mais", seja a facilitar a entrada no país seja a reconhecer os diplomas obtidos no país liderado por Nicolás Maduro.

"É muito complicado tirar um visto. Eu falo com colegas brasileiros e para eles foi muito mais fácil. Acho que o processo devia ser facilitado. Nós recebemos muitos portugueses e tratámo-los muito bem. Agora que a Venezuela está a passar por um momento complicado era bom ter um apoio", diz à Lusa Alexandra, que tirou jornalismo na Venezuela e que está neste momento também a frequentar o curso de português para estrangeiros na FLUC.

A sua turma inteira da universidade já está fora do país e, ao ir acompanhando as notícias, vê a situação a piorar cada vez mais.

No entanto, ao contrário de Enrique, tem uma visão mais otimista sobre a sua terra natal: "É um país bom e que tem que ir em frente. Não sei quando, mas em algum momento vai".

Por agora, está só a estudar português para conseguir dominar a língua, não tendo ainda planos para o futuro. "É como vocês dizem: logo se vê".

Eliana Vivas, a estudar medicina em Coimbra, saiu do seu país em 2012, pouco antes de Hugo Chávez, o antigo presidente, morrer.

"Como a situação na Venezuela estava a ficar preocupante e o curso de medicina é longo, tinha que ser a altura para sair do país", conta.

O pai, um madeirense que tinha um talho em Caracas, "já tinha sido assalto três vezes" no ano em que saíram do país, frisa.

Mesmo tendo demorado três anos a conseguir entrar em medicina em Portugal, continua a achar que a decisão de abandonar a Venezuela foi a correta. "Tenho colegas que começaram o curso antes do que eu [na Venezuela] e ainda não acabaram por causa das paragens nas faculdades".

Maurício Gomes, neste momento a trabalhar em Barcelona, chegou à Universidade de Coimbra em 2010, onde fez a licenciatura em jornalismo.

Filho de pai português, foi assistindo ao agravamento das condições de vida sempre que voltava à Venezuela, no verão. "Comecei a perceber as mudanças quando saía com os meus amigos. Se calhar, naquele primeiro verão de 2011, todos podiam pagar um café. Em 2012, havia um que não podia e em 2013 já eram dois ou três".

Em 2014, quando terminou o curso, o jovem venezuelano decidiu voltar ao seu país. "Ainda pensava que era possível. Ainda tentei experimentar como seria a minha vida profissional lá", conta.

Depois de assistir às barricadas da oposição nas avenidas e o Governo a "mandar os paramilitares" para a rua, decidiu ir para Espanha e começou um mestrado.

Mais tarde, a sua mãe e irmã acompanharam-no, ficando o pai na Venezuela, que não queria sair "para não voltar a ser emigrante: nasceu em Angola, foi retornado em Portugal, foi para o Brasil e depois acabou na Venezuela".

Em Barcelona, vai enviando comida ao pai, que está desempregado e que, pela primeira vez, viu o visto ser-lhe rejeitado, refere.

Muitos dos amigos de Maurício Gomes também saíram do país e quase ninguém tem ilusões sobre um possível regresso.

Eu não tenho intenção de regressar, só se houver uma mudança política séria muito a longo prazo. Sinto muitas saudades e ainda penso o que teria sido a minha vida se tivesse ficado lá. É como se fosse uma ex-namorada em que pensas como teria sido se não tivessem acabado. Vou sempre sentir isso, mas não, não não. Não volto. Um dos meus maiores medos é voltar, nem para ir de férias", diz.