Os habitantes do Laos acusaram as autoridades locais de minimizar o número de vítimas do colapso de uma barragem na segunda-feira, no quarto dia de buscas para encontrar as dezenas de pessoas ainda desaparecidos.

No meio de controvérsias, mantidas por décadas por um regime comunista que não tolera protestos nem meios de comunicação independentes, o vídeo do resgate de um bebé e da sua família, refugiados numa árvore cercada por água barrenta, incendiou a internet.

As autoridades ainda mantêm o balanço de 27 mortos, após terem anunciado inicialmente, através da agência oficial, "centenas de desaparecidos" após a rotura da barragem de Xe-Namnoy.

Mas, considerando os biliões de toneladas de água despejadas desde a noite de segunda-feira nesta remota área sul do Laos, englobando aldeias ao vizinho Camboja de onde milhares de pessoas tiveram que ser retiradas, as dúvidas sobre a exatidão do balanço expressam-se cada vez mais abertamente.

"Não é possível que haja apenas 27 mortos, há necessariamente pelo menos 100. Na nossa aldeia, em May, há muitos desaparecidos desde o dilúvio. Desapareceram?", questiona um morador entrevistado pela Agência France Presse (AFP), sob anonimato.

Uma equipa da AFP tentou deslocar-se àquela zona, mas foi proibida pelas autoridades, que apenas autorizam a ida a militares.

Outro habitante testemunhou a rapidez da subida das águas, que apanhou de surpresa muitas pessoas durante a noite, enquanto as autoridades anunciaram apenas una descarga de água de rotina: "A água subiu tão rápido que tudo foi levado e as pessoas não tiveram tempo de fugir”, conta.

Desde segunda-feira, os media oficiais deste pequeno e pobre país do sudeste asiático, entre a China e a Tailândia, têm minimizado os relatos dos órgãos de comunicação estrangeiros, que citaram nos primeiros dias o cônsul tailandês, que estava junto às equipas de resgate enviadas por Banguecoque.

"O número de desaparecidos, que é de cerca de cem, mostra que fizemos o melhor possível", disse hoje à imprensa o governador da região, Leth Xaiaphone.

"Tivemos apenas algumas horas para informar os aldeões", entre a rotura da barragem, na tarde de segunda-feira, e o início da inundação, à noite, admitiu.

"Eu só fui avisado sobre a subida da água uma hora antes, pelo chefe da aldeia. A minha família teve de se refugiar no telhado por cinco dias até que um barco das autoridades nos viesse buscar", contou à AFP Chayleng Duangaumpai, da aldeia de Man.

Nas aldeias visitadas pela AFP, muitas pessoas, desorientadas, pediam comida, enquanto a ajuda chegava com o apoio da Tailândia e do Vietname, mas sem qualquer ordem.

Em volta, as casas estão cobertas de lama após a retirada das águas, o que deixou à vista cadáveres de animais.

A Coreia do Sul anunciou esta sexta-feira o envio de ajuda de emergência avaliada em um milhão de dólares (857 mil euros), metade em equipamentos e o restante em dinheiro.

O Laos tem-se apoiado nos últimos anos no desenvolvimento de muitas barragens elétricas para satisfazer o apetite dos seus vizinhos asiáticos, como a Tailândia, mas a maneira pela qual os projetos são conduzidos, sem preocupações de segurança ou ambientais, é criticada por várias organizações não governamentais.

A estrutura que colapsou na segunda-feira faz parte de uma rede de várias barragens. Este projeto, de mais de um bilião de dólares, envolve empresas ao Laos, tailandesas e sul-coreanas, agrupadas numa ‘joint venture’, a Companhia de Energia Xe-Pian Xe-Namnoy (PNPC).

Além do alerta tardio aos aldeões, a polémica surge porque os danos na estrutura, causados por fortes chuvas, tinham sido vistos vários dias antes da rotura, sem que qualquer evacuação preventiva fosse ordenada.

"Por enquanto, estamos concentrados no socorro e na reconstrução. A investigação virá mais tarde", comentou um porta-voz da SK Engineering and Construction, parte do consórcio.