A passagem do Estado Islâmico pela terceira maior cidade do Iraque deixou para trás muito mais do que um rasto de morte e destruição. Condenou milhares à fome e mal nutrição, com as crianças nascidas durante a ocupação e a ofensiva dos exército iraquiano a pagar um preço inimaginável e para o qual os médicos dos poucos hospitais da cidade não estavam preparados.
 
São bebés que nasceram em Mossul durante os combates entre os Estado Islâmico e as tropas iraquianas que deixaram milhares de civis encurralados na cidade. As forças iraquianas, numa tentativa de conter a sobrevivência dos radicais, cortaram as principais ligações de abastecimento da cidade, cortando também a única forma de fazer chegar alimentos à população.
 
Hoje, o choro das crianças com fome e a sofrer de malnutrição severa, invade um dos hospitais da cidade mas os médicos estão de mãos atadas, porque se lhes derem comida em quantidade suficiente para travar as cólicas, podem agravar ainda mais a situação.
 
Uma situação para a qual os médicos iraquianos não estavam preparados, como explica a associação dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) que ajuda os médicos iraquianos a lidar com esta nova realidade. É que a malnutrição é habitualmente uma realidade que está instalada no continente africano e para a qual o médio oriente não estava sensibilizado. Quem sobreviveu ao domínio do Estado Islâmico explica que não tem praticamente nada para comer, a não ser farinha que é misturada com água e também trigo. Todos os restantes alimentos que ainda se podem encontrar, são demasiado caros ou foram apreendidos para alimentar os militantes radicais.
 
Numa nova ala do hospital de Qayyara, a cerca de 60 quilómetros a sul de Mossul, aberta especificamente para cuidar dos bebés e crianças malnutridas, uma equipa de médicos monitoriza cada grama. uma pasta à base de manteiga de amendoim é a arma nesta guerra contra a fome.
 
O leite em pó não tem como chegar a esta cidade e o leite materno simplesmente não é opção. Explica a coordenadora dos Médicos Sem Fronteiras em Mossul que, a maior parte das mães não consegue produzir o alimento primário devido ao stress físico e emocional de dar à luz numa zona de guerra. Uma das mães acrescenta que durante meses apenas conseguiu alimentar o filho com pequenas quantidades de água e açúcar.
 
A sobrelotação também já e uma realidade neste hospital. Na ala pediátrica as camas são geralmente partilhadas por duas crianças. A falta de cuidados pediátricos na região faz com que a maioria das crianças com menos de 15 anos sejam trazidas para Qayyara. Além da malnutrição e fome, são cada vez mais os casos de bebés que chegam ao hospital com dificuldades respiratórias como bronquiolites e pneumonias.
 
É também sinal do crescente número de viroses que se espalham não apenas pela cidade mas também pelos campos de refugiados. "Uma nova realidade para a qual o Iraque não estava preparado" -  confessa Isabelle Legall, coordenadora dos MSF em Mossul.