O romancista Prémio Nobel da Literatura em 1999 morreu esta segunda-feira, na cidade de Lübeck, Norte da Alemanha. A informação foi avançada à imprensa pela editora do escritor, a Steidl.
 
Günter Grass nasceu a 16 de outubro de 1927, no seio de uma família humilde. Os pais, católicos, eram donos de uma pequena mercearia em Gdansk (antiga Danzig), na Polónia, e viviam num modesto apartamento. O biógrafo Michael Jürgs, descreve o ambiente em que viveu a infância como algo «entre o Espírito Santo e Hitler».  
 
A juventude de Grass ficou marcada pelos horrores da II Guerra Mundial. Aos 17 anos foi convocado para servir as Forças Armadas alemãs. Foi membro da Juventude Hitleriana e, mais tarde, integrou a Waffen-SS, uma força especial nazi. Quando, ao fim de muitas décadas, resolveu falar sobre a sua experiência como jovem na II Grande Guerra, provocou um autêntico escândalo.
 
Amado por muitos, odiado por outros tantos, Günter Grass era visto por alguns como um exemplo moral e, por outros, como um hipócrita. O romancista confessou-se surpreendido com a reação à sua autobiografia, em 2006, onde contava precisamente a sua experiência na guerra. Garantiu que «nunca disparou um tiro», até ter sido ferido, em 1945, e capturado pelas forças aliadas.
 
Admitiu na altura da publicação da sua autobiografia que não cometeu crimes de guerra não «por mérito próprio». «Se eu tivesse nascido três ou quatro anos mais cedo, de certeza que teria sido envolvido nesses crimes», afirmou.
 
Sempre foi tido como um cidadão empenhado e comprometido social e politicamente. Escreveu os discursos do chanceler alemão Willy Brandt, entre 1969 e 1974, e, na altura, não se coibiu de defender a paz e manifestar-se contra a reunificação alemã, que comparou com a «anexação» da Áustria por Hitler.
 
Mais conhecido pelos romances que escreveu, Günter Grass ficou também conhecido como poeta. Menos conhecida era a sua faceta como artista plástico, nomeadamente escultor. Estudou artes gráficas e tocou numa banda.
 
A carreira de romancista começou em 1959, com a publicação de «Die Blechtrommel» («O Tambor», em português). O livro foi bastante polémico na altura, mas acabou por ser um sucesso estrondoso e foi traduzido em várias línguas e adaptado para o cinema. O livro acabou mesmo por, quatro décadas depois, ser o pivot do Prémio Nobel da Literatura.
 
A sua bibliografia é vasta e variada. Em Portugal, entre as suas obras mais conhecidas estão «A Ratazana», «Meu Século» e «Maus Presságios». Os seus livros, sejam baseados em situações reais ou pura ficção, tratam geralmente temas políticos e revoluções sociais.


O poema da polémica


Em 2012, um texto de Grass provocou polémica transfronteiriça e levou mesmo a que o escritor se tornasse uma persona non grata em Israel. «O que precisa ser dito» era um texto em forma de poema e uma crítica aberta à política externa de Israel.
 
No texto, Günter Grass faz um alerta sobre um possível ataque nuclear de Israel ao Irão e descreve o país judeu, com o seu poderio nuclear e a sua política de ocupação como um perigo para a paz mundial. Grass foi acusado de antissemitismo.



«Quem tem 500 amigos, não tem amigo nenhum»

 
Não tinha telemóvel e escrevia os livros à mão e passava-os depois para a sua velha máquina de escrever. «A ideia de ter um telemóvel e estar sempre contactável e de certa forma observável, aborrece-me», dizia.
 
Via com preocupação a ligação dos dezoito netos ao mundo virtual. «Quando um me diz “estou no Facebook”, eu pergunto: “o quê? O que é isso?”. Ele responde-me: “Bem… tenho 500 amigos”. Só me apraz dizer: “quem tem 500 amigos, não tem amigos”», disse numa entrevista ao Luisiana Channel.
 
«Se eu quiser informação, faço um esforço para a procurar. Leio livros, vou a bibliotecas», acrescentou. 


 

Cerca de uma dezena de livros disponíveis em Portugal

Cerca de uma dezena de livros do escritor alemão Gunter Grass, estão atualmente disponíveis no mercado português, disse à agência Lusa fonte do grupo editorial Leya.

O mais recente a sair em Portugal, em 2013, foi «Em viagem de uma Alemanha à outra - diário 1990». «Grimms Wörter», o terceiro livro autobiográfico e o último que Grass publlicou, em 2010, permanece inédito.

Contactada pela agência Lusa, a editora Marta Ramires não adiantou qualquer informação sobre uma possível publicação daquela obra, referindo apenas que a Leya tem estado a recolocar no mercado a obra anterior do Nobel da Literatura de 1999 (repartida entre a Casa das Letras e a D. Quixote).

Nos últimos anos foram editados ou reeditados «O tambor de lata» e «O gato e o rato» - dois dos romances da chamada «trilogia Danzig» - «O pregado», «O meu século», «A passo de caranguejo», «Escrever depois de Auschwitz», «Em Viagem de uma Alemanha à outra - diário 1990» e o álbum «Cem aguarelas», sobre a faceta de artista plástico.

Estão também publicados os volumes autobiográficos «Descascando a Cebola - Autobiografia 1939-1959» e «A Caixa - História da Câmara Escura», permanecendo inédito o último, «Grimms Wörter. Eine Liebeserklärung».

Quando publicou este último, que considerou uma «declaração de amor à língua alemã», Günter Grass afirmou que era uma obra «quase intraduzível». A única hipótese que o tradutor tem, segundo Grass, é a de transformar-se em coautor e apropriar-se do texto de forma individual.

Além daquelas dez obras, outros títulos de Günter Grass foram traduzidos e publicados em Portugal, mas a maior parte foi há mais de dez anos, nomeadamente «Uma longa história», «Mau agoiro» e «O cão de Hitler», o terceiro da «trilogia Danzig».

Günter Grass, Nobel da Literatura, morreu hoje aos 87 anos, deixando uma obra marcada pela polémica, sobretudo pela relação com o seu país.

Ao longo de mais de meio século, o autor publicou cerca de trinta obras desde romances, poemas e peças de teatro.

Em 2012, publlicou um poema, acusando Israel de «ameaçar a paz mundial». O Estado israelita declarou-o então «persona non grata».