Uma célula afegã do norte de Paris ajudou a mulher mais procurada de França a fugir para a Síria, para uma zona controlada pelo Estado Islâmico, indica o jornal francês «Le Monde». A polícia francesa tinha emitido um mandado de captura para Hayat Boumeddiene, de 26 anos, para determinar que papel desempenhou a mulher de Amedy Coulibaly, o sequestrador do supermercado judaico, em Paris, e que terá participado também na morte de um polícia, no dia seguinte ao atentado à redação do jornal «Charlie Hebdo», em Paris.

De acordo com o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Hayat Boumeddiene chegou ao aeroporto de Istambul a 2 de janeiro, via Madrid, e ficou num hotel. A mulher cruzou a fronteira Síria na Turquia no dia 8 de janeiro. O bilhete de regresso, com data de 9 de janeiro, nunca foi utilizado. 

A estação de televisão Habertürk divulgou na segunda-feira imagens de videovigilância que mostram a viúva do terrorista Amedy Coulibaly, a passar pelo controlo de passaporte no aeroporto Sabiha-Gökçen em Istambul, na Turquia, no dia 2 de janeiro. A acompanhá-la estava um homem, que levava uma mochila e usava uma barba rala e cabelo comprido amarrado para trás. Esse homem foi identificado como sendo Mehdi Belhoucine, um cidadão francês de 23 anos. Um nome conhecido dos serviços de inteligência franceses por estar ligado a uma célula afegã que recruta combatentes para a «jihad» (Guerra Santa). 

De acordo com o «Le Monde», em julho de 2014, o irmão mais velho de Mehdi Belhoucine, Mohamed, foi condenado a dois anos de prisão «pela participação na célula que recrutava combatentes para a zona paquistano-afegã». Em concreto, Mohamed Belhoucine divulgava filmes de propaganda jihadista online para a Al-Qaeda. A acusação final do Ministério Público parisiense, de 21 de Fevereiro de 2014, sublinhou «a profundidade das suas convicções e o seu papel de intermediário de propaganda jihadista na Internet».

Ir para países por razões humanitárias

Mehdi Belhoucine aparece perifericamente neste caso: era presença frequente num apartamento na localidade de Bobigny, em que se visionavam vídeos de propaganda. Na altura, com 18 anos, Mehdi Belhoucine era estudante de Eletrotecnia. De acordo com um participante dessas noites, Mehdi Belhoucine apenas «ia jogar consola».

Aos investigadores que o ouviram como testemunha, Mehdi Belhoucine explicou que se sentia «particularmente preocupado com a situação» no Afeganistão, no Iraque, na Palestina e na Chechénia.

«Eu pensei ir a um desses países, mas não necessariamente logo para pegar em armas. A ideia seria estar lá com eles, ajudá-los, talvez sob a forma de ajuda humanitária e, se fosse pressionado, talvez fosse levado a pegar em armas», afirmou Mehdi Belhoucine.


Sobre ele acabou por não recair nenhuma queixa.


Nova ligação

Para ajudar na fuga de Hayat Boumeddiene, Mehdi Belhoucine beneficiou dos contactos de uma pessoa próxima do irmão, de nome Zahir Chouket, ele próprio em fuga para a Tunísia. A acusação final do Ministério Público parisiense, de 21 de Fevereiro de 2014, apresenta Chouket como desempenhando «um papel de facilitador na Turquia, onde ele tinha contactos que podiam dar guarida [a jihadistas] em Istambul».

A aparição de Mehdi Belhoucine ao lado da esposa de Coulibaly acrescenta uma nova ligação a um caso que envolve várias células do islamismo radical. Os irmãos Kouachi deram os primeiros passos na célula de Buttes-Chaumont, do norte de Paris, que enviou combatentes para o Iraque. Eles foram, então, para o Iémen e reivindicaram o massacre de «Charlie Hebdo» em nome da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA). Sob a influência do mesmo mentor, o terrorista Djamel Beghal, um dos irmãos Kouachi fez amizade na cadeia com Amedy Coulibaly, que lhe assegurou ter cometidos os crimes em nome do Estado Islâmico. E é assim que um membro de uma célula afegã ajuda a esposa de Coulibaly a chegar à Síria, conclui o «Le Monde».

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