Notícia atualizada às 16:51

O autor francês Patrick Modiano é o vencedor deste ano do prémio Nobel da Literatura, atribuído esta quinta-feira pela Academia Sueca.
O escritor diz que o Nobel é «um pouco surreal» .


Patrick Modiano, de 69 anos, é autor de obras como «La Ronde de nuit» (1969), «Les Boulevards de ceinture» (1972), «Villa triste» (1975), «Rue des boutiques obscures» (1978), «Quartier Perdu» (1984), «Voyage de noces» (1990), ou o mais recente «L'Herbe de nuit» (2012). 

A Academia Sueca justifica a atribuição «pela arte da memória com a qual ele evocou os mais incompreensíveis destinos humanos e desvendou o mundo da ocupação [da Alemanha]».

Em entrevista após o anúncio, Peter Englund, Secretário Permanente da Academia Sueca reconheceu que o autor é bem conhecido em França, mas não internacionalmente e recomendou a obra «Rue des boutiques obscures» (em inglês traduzido para «Missing Person») para quem quiser começar a conhecer o trabalho do novo laureado.


Segundo destaca a Academia, os trabalhos de Modiano centram-se em temas como a memória, o esquecimento, identidade e culpa, com a cidade de Paris muitas vezes presente nos textos.

Modiano é o 15.º francês a receber o prémio, o 11.º nascido em França.  Veja o momento do anúncio oficial. 

Segundo a agência AFP, o editor de Modiano, Antoine Gallimard, falou com o escritor e garante que o novo Nobel da Literatura está «muito feliz».

Veja a primeira entrevista do Nobel da Literatura 2014 (em francês)

«Telefonei-lhe para lhe dar os parabéns e com a sua modéstia habitual disse "é estranho", mas está muito feliz», afirmou Gallimard.

«Ao receber o telefonema da Academia Sueca, dois ou três minutos antes do anúncio oficial, pensei em Modiano e na sua discrição lendária, quando ele for discursar perante a Academia Sueca. E eu estarei atrás de si [de Modiano]», acrescentou o editor, desta vez à France Presse, segundo a Lusa. 

O editor estava convencido «que seria preciso esperar mais 30 anos, para que um outro autor francês recebesse o Nobel, depois de [Jean-Marie] Le Clézio», que foi distinguido em 2008.



Patrick Modiano nasceu em Boulogne-Billancourt, a 30 de julho de 1945, na reta final da Segunda Guerra Mundial. Filho de um judeu italiano e de uma atriz belga, que se conheceram em Paris durante a ocupação, o escritor não teve uma infância fácil. Teve de lidar com a ausência de seu pai, as contantes viagens da sua mãe e ainda a morte de um irmão, a quem viria a dedicar o primeiro livro,  "La Place de l'Étoile" (1968). 

Os cenários dos seus livros baseiam-se muitas vezes, aliás, em experiências desses tempos.  «Dona Bruder», de 1997, por exemplo, fala de uma parisiense  que se torna vítima do Holocausto.

Considerado um dos mais importantes escritores francês, Modiano publicou perto de 30 livros, bem como alguns guiões para cinema. Antes do prémio Nobel, já tinha recebido o Grande Prémio da Academia Francesa das Letras (1996) e o Prémio Margerite-Duras, dois dos mais importantes da literatura francesa. 

Em Portugal estão à venda as obras: pela Dom Quixote, «Domingos de Agosto», de 1988, pela Relógio d’Água, «A Rua das Lojas Escuras, também do mesmo ano, pela ASA, «Dora Bruder», 1998, e «No Café da Juventude Perdida», 1999, e pela Porto Editora, o mais recente «O Horizonte», em 2011.

Segundo a Lusa, na altura, o editor Manuel Alberto Valente, da Porto Editora, definiu Modiano como «o principal escritor francês da atualidade».

No que toca a argumentos para filmes, vale o destaque para a colaboração com o realizador Louis Malle, para a longa-metagem «Lacombe Lucien» (1974), passada na França, durante a ocupação alemã, protagonizada por um jovem. 

O livro mais recente do galardoado com o Nobel da Literatura é deste ano, e intitula-se «Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier».

Patrick Modiano vai receber cerca de oito milhões de coroas suecas, cerca de 877 mil euros.


O romancista «enganou» a maioria das casas de apostas, que davam como certa a atribuição do prémio ao queniano  Ngugi wa Thiong’o ou ao japonês Haruki Murakami.

Na história do Nobel da Literatura figura apenas um português, José Saramago, laureado em 1998.