A jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich, de quem foi publicado este ano em Portugal o livro "O fim do homem soviético", foi distinguida com o prémio Nobel da Literatura, esta quinta-feira.
 
Svetlana, de 67 anos, é a 14ª mulher a ganhar um Nobel da Literatura e foi distinguida "pela sua escrita polifónica, um monumento ao sofrimento e coragem do nosso tempo".
 

Apesar de ter surgido entre os favoritos, Svetlana Aleksievitch mostrou-se surpreendida por ter sido distinguida com o Nobel da Literatura 2015.

Em declarações por telefone à televisão pública sueca SVT, Svetlana Aleksievitch, disse que conquistar o Nobel da Literatura é "uma sensação fantástica, mas, ao mesmo tempo, um pouco perturbadora".

"Penso de imediato em grandes nomes como Bunin Pasternak", disse, referindo-se a Boris Pasternak, poeta e romancista russo, autor de "Dr. Jivago", distinguido com o Nobel da Literatura em 1958.

Ao jornal Svenska Dagbladet, a autora explicou que, pessoalmente, o galardão ser-lhe-á favorável: "Significa que já não será tão fácil os poderosos da Bielorrússia e da Rússia repudiarem-me com um gesto".



Svetlana Alexievich nasceu a 31 de maio de 1948 na cidade de Ivano-Frankivsk, na Rússia, filha de pai bielorruso e mãe ucraniana. Depois do pai ter concluído o serviço militar, a família mudou-se para a Bielorrússia, onde os pais trabalhavam como professores. 

Seguindo o exemplo dos pais, depois de terminar os estudos, Alexievich trabalhou como professora e jornalista, tendo-se formado em jornalismo na Universidade de Minsk entre 1967 e 1972.

Após a licenciatura, trabalhou num jornal em Brest, perto da fronteira polaca, mas acabou por regressar a Minsk para trabalhar no jornal Sel’skaja Gazeta.

O seu primeiro livro, para o qual recolheu material durante vários anos, foi publicado em 1985 -  War’s Unwomanly Face, e é o primeiro livro de um grande ciclo de livros - "Vozes da Utopia" - onde é retratada a vida na União Soviética.

Através do "seu método extraordinário", como lhe chama a Academia, - uma cuidadosa colagem de vozes humanas - a jornalista bielorrussa faz uma compreensão aprofundada de uma era.

Svetlana publicou ainda "
Last witnesses" (1985), " Zinky Boys - Vozes soviéticas de uma guerra esquecida" (1990), "Second-hand Time: The Demise of the Red (Wo)man" (2013) - que pertence às «Vozes da Utopia», 

As consequências de Chernobyl deram origem às "Vozes de Chernobyl - Crónica do Futuro", publicado em 1997. 

Segundo a sua biografia, publicada pela Academia Sueca, as notas da enfermeira e escritora Sofia Fedorchenko (1888–1959) foram uma grande influência para Svetlana Alexievich, uma vez que retratavam experiências dos soldados da I Guerra Mundial, assim como o documentário de Ales Adamovich (1927–1994) sobre a II Guerra Mundial.

Os livros da jornalista bielorrussa estão traduzidos em 22 línguas e foram já adaptados a peças de teatro e documentários. O seu mais recente livro, "O fim do homem soviético - um tempo de desencanto", publicado pela Porto Editora, recebeu o Prémio Médicis Ensaio, em 2013, e foi considerado o Melhor Livro do Ano pela revista Lire.
 

Svetlana Aleksievitch é a "história da alma" pós-soviética


A secretária permanente da Academia Sueca, Sara Danius, considerou hoje que a Nobel da Literatura 2015, é uma "escritora extraordinária" que traçou uma "história da alma" do período pós-soviético.

Numa declaração divulgada pela Academia, a nova secretária permanente afirmou que Svetlana Aleksievitch, de 67 anos, "esteve ocupada nos últimos trinta ou quarenta anos a mapear o indivíduo [do período] pós-soviético".

"Não se trata de uma história sobre acontecimentos, mas sobre emoções", afirmou Sara Danius, sublinhando que os temas retratados por Svetlana Aleksievitch, como o desastre nuclear de Chernobyl, são "pretextos para conhecer o indivíduo soviético e pós-soviético".



De acordo com a página oficial dos prémios Nobel, a Academia Sueca recebeu 259 candidaturas, tendo escolhido 198 autores, entre os quais 36 que foram nomeados pela primeira vez.

Atribuído pela primeira vez em 1901 ao escritor Sully Prudhomme, o Nobel da Literatura distinguiu em 1998 o escritor português José Saramago.

O prémio tem um valor monetário de 860.000 euros.

Na história do Nobel da Literatura apenas 13 mulheres foram distinguidas com o prestigiado galardão. A mais recente foi a escritora canadiana Alice Munro, em 2013.
 

Lista dos autores premiados no século XXI


2015: Svetlana Aleksievitch (Bielorrússia).
2014: Patrick Modiano (França).
2013: Alice Munro (Canadá).
2012: Mo Yan (China).
2011: Tomas Transtroemer (Suécia).
2010: Mario Vargas Llosa (Peru).
2009: Herta Mueller (Alemanha).
2008: Jean-Marie Gustave Le Clezio (França).
2007: Doris Lessing (Reino Unido).
2006: Orhan Pamuk (Turquia).
2005: Harold Pinter (Reino Unido).
2004: Elfriede Jelinek (Áustria).
2003: J.M. Coetzee (África do Sul).
2002: Imre Kertesz (Hungria).
2001: V.S. Naipaul (Reino Unido).
2000: Gao Xingjian (França).