Os esforços desenvolvidos para acabar com 50 anos de guerra civil na Colômbia deu o Prémio Nobel da Paz ao Presidente Juan Manuel Santos. O anúncio foi feito esta sexta-feira de manhã, em Oslo, na Noruega, tendo o galardão sido justificado como um “tributo ao povo colombiano, que apesar de grandes dificuldades e abusos, não perdeu a esperança de uma paz justa".

Ao tomar conhecimento da distinção, o chefe de Estado colombiano disse estar "emocionado" e "agradecido", noticia o jornal francês Le Figaro.

"Ele acrescentou que o prémio é de inestimável importância para o avanço do processo de paz na Colômbia", disse, citado pelo jornal, Olav Njoelstad, o secretário-geral do Comité Nobel, que falou com Juan Manuel Santos por telefone.

O Presidente da Colômbia, está neste momento envolvido no maior projeto do próprio mandato: a assinatura de um acordo de paz com as FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, também vistas como organização terrorista.

O Governo colombiano e as FARC tinham selado um acordo de paz para pôr fim ao ciclo de violência que custou ao país mais de 220 mil vidas no último meio século e deixou quase sete milhões de deslocados internos e 45 mil desaparecidos, mas os colombianos foram no dia 2 de outubro às urnas para votar uma rejeição desse acordo.

O acordo de 297 páginas, que foi elaborado durante quatro anos em Havana, Cuba, aconteceu após três tentativas fracassadas durante os governos de Belisario Betancur, César Gaviria e de Andrés Pastrana.

A vitória do “Não” no plebiscito de domingo foi considerado um duro golpe para o Governo de Juan Manuel Santos e colocou em dúvida o processo para superar o conflito, mas as FARC fizeram saber que vão manter o cessar-fogo definitivo acordado com o Governo, mesmo depois de os colombianos terem expressado estarem contra.

Questionada pelos jornalistas sobre se o comité considerou atribuir o prémio a mais partes, nomeadamente ao líder das FARC, que a 26 de setembro assinou o acordo de paz histórico com Juan Manuel Santos, a presidente do Comité Nobel Norueguês escusou-se a comentar outros candidatos.

"Há muitas partes no processo de paz. O Presidente Santos tomou uma iniciativa histórica, ele dedicou-se completamente, com grande força de vontade, para alcançar o resultado", disse a presidente, Kaci Kullmann Five, acrescentando que o comité vê este prémio como "um forte encorajamento para todas as partes neste processo negocial".

Sobre a eventual contestação à decisão do comité, uma vez que o acordo de paz entre a Colômbia e as FARC foi rejeitado pela maioria dos colombianos em referendo, a presidente admitiu ser comum o Nobel da Paz ser contestado, mas garantiu que o objetivo foi "honrar o trabalho que foi feito por todas as partes" e manifestar "apoio ao povo colombiano".

"Não é desrespeito. É claro que respeitamos o processo democrático e o voto do povo, mas eles não disseram não à paz, apenas a este acordo", sublinhou, afirmando que "é extremamente importante evitar que a guerra civil recomece".

No comunicado, o Comité Nobel norueguês recorda que Juan Manuel Santos iniciou as negociações que levaram ao acordo de paz entre o Governo colombiano e as guerrilhas da FARC, procurando consistentemente levar o processo de paz adiante.

Embora soubesse que o acordo era controverso, o Presidente garantiu que os eleitores colombianos podiam manifestar opinião sobre o acordo em referendo, relembra o comunicado.

"O resultado do referendo não foi o que o Presidente Santos queria: uma curta maioria dos mais de 13 milhões de colombianos que votaram disse não ao acordo. Este resultado criou grande incerteza sobre o futuro da Colômbia. Há um perigo real de o processo de paz parar e de a guerra civil recomeçar. Isto torna ainda mais importante que as partes, lideradas pelo Presidente Santos e pelo líder das guerrilhas das FARC, Rodrigo Londoño, continuem a respeitar o cessar-fogo".

O Comité sublinha que o facto de o referendo ter sido rejeitado nas urnas não significa que o processo de paz tenha morrido.

"O que o lado do 'não' rejeitou não foi o desejo de paz, mas um acordo específico", recorda o comunicado, sublinhando que o próprio Presidente tornou claro que continuará a trabalhar pela paz até ao último dia do seu mandato.

O comité espera, por isso, que o Nobel da Paz lhe dê força para alcançar esse objetivo, porque só quando o país puder recolher os frutos do processo de paz e reconciliação será possível abordar eficazmente outros desafios, como a pobreza, a injustiça social e o crime associado à droga.

A temporada dos prémios Nobel 2016 começou na segunda-feira com o anúncio do Nobel da Medicina, atribuído ao japonês Yoshinori Ohsumi pela descoberta do mecanismo de autofagia celular. O Nobel da Física foi atribuído na terça-feira a David J. Thouless, e a F. Duncan M. Haldane e J. Michael Kosterlitz pelas descobertas teóricas das transições da fase topológica e às fases topológicas da matéria. Na quarta-feira, a Real Academia Sueca das Ciências distinguiu o francês Jean-Pierre Sauvage, o britânico Fraser Stoddart e o holandês Bernard Feringa com Nobel da Química pela criação de máquinas moleculares.

O Prémio Nobel da Paz é o único atribuído fora de Estocolmo, na Suécia, de acordo com a decisão de Alfred Nobel, já que na época a Noruega integrava o Reino da Suécia.

Marcelo Rebelo de Sousa felicita Juan Manuel Santos 

Marcelo Rebelo de Sousa, enviou esta sexta-feira, em nome pessoal e do povo português, uma mensagem de felicitações ao Presidente da Colômbia pela "merecida atribuição" do prémio Nobel da Paz.

Na carta dirigida a Juan Manuel Santos, divulgada na página da Presidência da República na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa considera que esta foi uma "merecida atribuição" do Nobel da Paz, "pela sua iniciativa e êxito no histórico acordo de paz alcançado na Colômbia, destinado a pôr termo a um conflito que durou mais de cinco décadas e que tanto sofrimento trouxe ao povo colombiano".

O Presidente da República manifesta a esperança de que o acordo de paz entre o Governo da Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), entretanto rejeitado em referendo, "se concretize o mais rapidamente possível".

Marcelo Rebelo de Sousa reafirma nesta carta que Portugal quer "trabalhar lado a lado com a Colômbia na fase, não menos importante, que é a da implementação da paz" e "contribuirá com meios humanos e financeiros, tanto para a força de estabilização como para o fundo fiduciário, criados para o efeito".

O chefe de Estado escreve que Portugal "partilha com a Colômbia laços fraternos, quer a nível bilateral, quer no seio da Comunidade Ibero-Americana" e diz aguardar com "grata expetativa" o próximo encontro com Juan Manuel Santos, por ocasião da Cimeira Ibero-Americana de Cartagena das Índias, na Colômbia, marcada para 28 e 29 deste mês.

Também esta sexta-feira, em declarações aos jornalistas no Porto, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou que a atribuição do Nobel da Paz ao homólogo da Colômbia “pode ser um estímulo para o entendimento, a convergência e a compreensão” naquele país.

Marcelo Rebelo de Sousa destacou ainda que este Nobel da Paz é um “prémio dado de forma especial ao povo” colombiano.

“É um prémio dado, de forma especial, a um povo que sofreu 50 anos de guerra civil, que quer a paz, que merece a paz. Uma paz que todos ansiamos que venha a ser uma realidade”, afirmou.