Um grupo de civis armados apoiantes do presidente Nicolás Maduro invadiu, esta quarta-feira, o parlamento da Venezuela, em Caracas, ferindo vários deputados e jornalistas, noticiam as agências Reuters e AFP.

O ataque aconteceu no momento em que os deputados do parlamento, único órgão maioritariamente controlado pela oposição a Maduro, celebravam uma sessão especial relativa ao dia da independência.

 

 

 

 

 

 

Repórteres ao serviço da AFP descreveram o momento da invasão, dizendo que dezenas de pessoas armadas com bastões e vestidas de vermelho, a cor do partido do presidente venezuelano, entraram no complexo parlamentar.

Os mesmos repórteres indicaram que foram ouvidas pequenas explosões causadas por petardos atirados contra o edifício do Parlamento.

 

 

O grupo de manifestantes estava concentrado diante do edifício do parlamento em protesto contra a oposição a Nicolás Maduro, maioritária no órgão legislativo desde o início de 2016. A invasão dos jardins deu-se durante um intervalo na sessão. A confusão foi generalizada.

 

 

 

O Governo tem recorrido sempre à violência”, acusou Stalin Gonzalez, deputado oposicionista citado pela AFP.

“Continuaremos a enfrentar estes selvagens”, garantiu Simon Calzadilla, outro deputado da oposição a Maduro.

Nas redes sociais, um dos deputados que ficou ferido no incidente, Armando Armas, apelou à resistência e disse que o poder da ditadura nada pode contra um povo decidido a reconquistar a liberdade.

Por mais que nos agridam, não vamos abandonar esta luta", afirmou o parlamentar na conta pessoal no Twitter.

 

 

 

 

 

A oposição responsabiliza o governo, mas Nicolás Maduro já veio condenar o ataque. O presidente negou qualquer responsabilidade e disse que se tratou de mais um momento em que "aconteceram coisas estranhas" onde estava a oposição.

"Nunca serei cúmplice de atos de violência. Condeno-os e já ordenei que sejam investigados e que seja feita justiça", afirmou.

 

"Coletivos" e portas abertas

O ataque ao parlamento foi precedido por uma visita do vice-presidente da Venezuela. Em conjunto com vários membros do governo, e cerca de 300 apoiantes, Tarek El Aissami entrou no edifício para realizar um ato no salão Elíptico, onde está a ata da Independência da Venezuela.

Estamos nas instalações de um poder do Estado, sequestrado pela mesma oligarquia que traiu a [Simón] Bolívar", disse o vice-presidente, num discurso em que defendeu a convocatória a uma Assembleia Constituinte feita por Nicolás Maduro.

Tarek El Aissami avisou que Maduro não se renderá, nem cederá no propósito de levar adiante a Assembleia Nacional Constituinte, refere a AFP.

Aqui está um presidente digno que nunca se renderá, nem permitirá que a Venezuela seja colónia de qualquer potência estrangeira", declarou.

A visita de El Aissami foi feita sem informação prévia à mesa da Assembleia Nacional, onde a oposição está em maioritária.

À saída, as portas do parlamento ficaram abertas permitindo a entrada dos "coletivos", denominação pela qual são conhecidos os grupos de civis armados afetos ao regime, que lançaram engenhos explosivos, ameaçando sequestrar os deputados.

Parlamento aprova plebiscito 

Pouco depois de os civis armados afetos ao regime terem entrado no parlamento, a Assembleia Nacional da Venezuela aprovou um plebiscito para 16 de julho, de modo a que os venezuelanos decidam se querem continuar a ser presididos por Nicolás Maduro.

No dia do plebiscito os venezuelanos devem ainda decidir se aprovam a realização da Assembleia Constituinte proposta pelo chefe de Estado e quais as funções que devem ser atribuídas às Forças Armadas Venezuelanas.

De acordo com a oposição, a consulta popular terá lugar junto das igrejas, escolas e praças públicas.

Vaga de contestação

Venezuela encontra-se mergulhada numa grave crise política que opõe o presidente do país, Nicolas Maduro, ao parlamento, dominado pela oposição.

Os protestos, de que já resultaram 91 mortos em três mesesintensificaram-se no princípio de abril, com a oposição a convocar manifestações para exigir a destituição de magistrados do Supremo Tribunal.

As manifestações, das quais muitas resvalaram em violentos confrontos, agravaram-se com o anúncio, no início de maio, do arranque do processo de criação de uma Assembleia Constituinte para reformar a Constituição, como a única forma de garantir a paz. A oposição considerou esta decisão um golpe de Estado e uma forma de Maduro conseguir perpetuar-se no poder.

A eleição da Assembleia Constituinte está marcada para 30 de julho.