E eis que o tema da saúde de Hillary Clinton regressou em força.

A 11 de setembro, durante as cerimónias em memória das vítimas dos atentados às Torres Gémeas, em Nova Iorque, a candidata democrata teve abandonar a sessão a meio, apesar de os assessores se recusarem a especificar a razão, falando apenas em "indisposição".

O pior ocorreria depois: Hillary aparecia a desfalecer quando entrava para uma carrinha que a iria transportar para fora do recinto onde se assinalavam os 15 anos dos atentados.

Era uma daquelas imagens com força suficiente para poder mudar o curso de uma disputa eleitoral: a democrata só não caiu redonda no chão porque estava amparada por uma assessora e seguida de perto por outros assessores e seguranças.

Horas depois, a médica pessoal de Hillary, Lisa Bardack, libertava uma declaração na qual referia que a candidata apanhou uma pneumonia e que necessita de uns dias de repouso e recuperação.

Estava, de novo, lançada a polémica em torno do tema 'saúde de Hillary', que nas últimas semanas já havia sido aflorado por alguns media e, sobretudo, por Rudy Giuliani, conselheiro político da campanha de Trump.

Na semana passada, por duas vezes, Hillary teve ataques de tosse enquanto falava. Num desses momentos, em pleno comício, atirou uma piada que já parecia preparada caso o problema acontecesse ("Sempre que penso em Trump fico alérgica"), tendo a outra situação sido quando respondia, no avião de campanha, aos jornalistas.

Terá Hillary condições físicas de ser Presidente dos EUA? Se a nomeada presidencial democrata teve a pneumonia desde sexta passada, isso não devia ter sido anunciado em público?

Donald Trump, que nos últimos meses foi lançando a ideia de que Hillary estaria com uma debilidade física que a impediria de "ser forte no combate ao ISIS", vestiu desta vez a pele de cordeiro e desejou "rápidas melhoras" à adversária, para que possa enfrentá-la no debate de dia 26. "Juro que não tenho qualquer prazer em ver Hillary doente".

Certo é que passou, a partir de agora, a ser impossível relativizar o tema. E ficou ainda mais difícil atirar simplesmente a questão "Hillary doente" para a gaveta das "teorias da conspiração".

A candidatura de Hillary foi fortemente criticada por não ter sido mais explícita em relação ao tema, antes do episódio de 11 de setembro. Robby Mook, diretor de campanha, em clara gestão de danos, centralizou por completo essa responsabilidade "nos assessores e estrategas e não na candidata".

Mas dificilmente Clinton se livra do mantra, que há tantos anos a persegue, de que 'anda a esconder alguma coisa'.

Entendamo-nos: o boletim de saúde não é uma questão do foro privado para quem pretende merecer o voto de dezenas de milhões de americanos e, assim, chegar à Casa Branca. 

Aqui chegados, não restará a Hillary outra via que não seja a de ser a mais transparente possível em relação ao seu estado de saúde -- o julgamento sobre se isso será ou não impeditivo para ser Presidente deve, como sempre, caber aos eleitores americanos. 

Na segunda à noite, 30 horas depois do episódio, Hillary falou por telefone a Anderson Cooper, da CNN, e garantiu:"Sinto-me muito melhor. Não pensei que isto da pneumonia fosse assim tão complicado e por isso continuei. Obviamente, devia ter descansado mais cedo".

E pouco depois, em mensagem escrita no Facebook oficial da sua campanha, reforçava: "Queria só agradecer os votos de melhoras que me enviaram e dizer-vos que estou a sentir-me melhor e a recuperar. Como toda a gente que fica doente uns dias em casa, estou ansiosa por voltar ao trabalho. Há tanto em jogo nestas eleições e só temos 57 dias para esta campanha. Quero que cada um deles conte."

Noutra diligência de minimização de danos, Bill Clinton, em entrevista a Charlie Rose, na CBS, garantia: "Às vezes, em mais do que uma ocasião, nos últimos largos anos, o mesmo tipo de episódios ocorreram com Hillary quando foi exposta a severa desidratação. Foi o caso, estava muito calor e esteve ali muito tempo. E a verdade é que ela continuou sempre a trabalhar como o diabo, como sabem, como Secretária de Estado, como senadora e nos anos mais recentes".

Os próximos dias e semanas serão fundamentais para se saber se esta questão será decisiva, ou não, para os resultados de 8 de novembro. 

A campanha de Hillary garantiu que a candidata nunca perdeu a consciência e esteve sempre contatável. E que em poucos dias voltará ao terreno da campanha, após terem sido desmarcadas as ações previstas para a Califórnia. 

A contagem decrescente para o primeiro debate já começou (26 de setembro, Universidade de Hofstra, Hampstead, Nova Iorque) e para Hillary será fundamental aparecer forte e robusta nesse momento. Se até lá for repetida a imagem de uma candidata débil e de saúde precária, as coisas podem complicar-se para aquela que foi, até agora, a clara favorita à sucessão de Barack Obama na Casa Branca. 

Ainda que apenas em surdina, há alguns setores democratas que não conseguem disfarçar o nervosismo.

Apesar de ser altamente improvável que os democratas tenham que mudar o seu ticket presidencial à última hora, Don Fowler (antigo líder do Comité Nacional do Partido Democrático, durante a presidência Bill Clinton) gostaria de jogar pelo seguro: "Este é o tempo para que todos os bons líderes do partido se juntem e ajudem para que haja uma solução de emergência preparada", disse ao site Politico.

O DNC tem poderes para encontrar uma solução rápida, caso se concluísse que Hillary não tem saúde suficiente para enfrentar a eleição. Os estatutos do partido preveem que, em casos extremos desses, uma reunião do comité nacional marcada especialmente para resolver o problema pode indicar um novo candidato, bastando que haja maioria.

Mas Ed Rendell, antigo governador da Pensilvânia e também ele ex-líder do DNC, é perentório: "Não há qualquer hipótese de haver alteração de candidato. Será Hillary".

E Donna Brazile, presidente em exercício do DNC após a demissão de Debbie Wasserman Shultz, mostrou-se "muito motivada com as melhoras de Hillary" e "confiante em que muito em breve ela volte ao terreno da campanha e retome o caminho para a vitória".