Estamos a um ano do arranque oficial da corrida presidencial nos EUA: os «caucuses» do Iowa são a 18 de janeiro de 2016 e as votações em New Hampshire, primeiro estado com modelo de «primárias» estão agendadas para oito dias depois, 26 de janeiro do próximo ano.
 
É certo que Barack Obama ainda tem quase dois anos de mandato pela frente (termina funções a 20 de janeiro de 2017), mas a partir de agora as atenções sobre questões presidenciais norte-americanas ficam divididas por dois campos.
 
Por um lado, os trunfos finais que o 44.º Presidente parece disposto a querer jogar no tempo que lhe resta na Casa Branca; por outro, os candidatos que, nos próximos meses, se forem perfilando e avançando para a obtenção da nomeação presidencial de democratas e republicanos.
 
Se as eleições presidenciais de novembro de 2016 fossem hoje, era bem provável que a disputa viesse a ser protagonizada por Hillary Clinton e Jeb Bush.
 
Em função do que dizem as sondagens, são esses os «frontrunners» de democratas e republicanos.
 
Mas quem acompanha minimamente a política americana sabe que isto ainda pode dar uma grande volta.
 
Mais do lado republicano, é certo. A luta nos democratas está de tal moco centrada no avanço esmagador de Hillary Clinton (entre 50 a 60 pontos, algo que não parece reversível num ano, mesmo na política americana),
 
Mesmo assim, é de esperar que apareça uma «sensibilidade» à esquerda do «core» democrata, que represente quem considere que o Presidente Obama cedeu demais junto dos republicanos, nestes dois mandatos de presidência democrata.
 
Essa «sensibilidade» poderá ser representada pela senadora Elizabeth Warren, do Massachussets, uma espécie de «campeã» da esquerda americana no Capitólio, ao falar claro e em tom direto e agressivo junto dos interesses de Wall Street e até do Presidente Obama (de quem já foi forte apoiante, sendo agora algo crítica).
 
O senador independente, mas na prática democrata, Bernie Sanders, do Vermont, pode ser outro protagonista dessa corrente à esquerda do «mainstream» democrata (boas ideias em matéria fiscal e social), embora tenha muito menos condições de avançar como alternativa do que terá Elizabeth Warren (mais conhecida a nível nacional e com mais apoios).
 
Candidatos democratas duma área mais centrista só terão alguma hipótese se, por razões que neste momento não se descortinam, Hillary Clinton falhar: o «vice» Joe Biden (possível herdeiro político da presidência Obama, mas com problemas de idade e estilo); o ex-governador Martin O’Malley, do Maryland; o jovem hispânico Julian Castro, filho de mexicanos, antigo «mayor» de San António, Texas e atual secretário da Habitação da Administração Obama; o governador Andrew Cuomo, de Nova Iorque, talvez o mais provável beneficiário, num cenário improvável de não avanço de Hillary.
 
E ainda poderá haver alguém a aparecer, no campo democrata, à direita do «eixo Obama-Hillary»: Jim Webb, antigo membro da administração Reagan, senador pela Virgínia, um dos estados-chave das corridas presidenciais.
 
Ao contrário do que acontece no campo democrata, em que há a superfavorita Hillary Clinton, a corrida à nomeação republicana promete ser longa e imprevisível.

Outro Bush?
 
Jeb Bush, filho e irmão dos últimos dois presidentes republicanos, antigo governador da Florida, surge como o candidato mais viável nesta altura. Tem algum avanço nas sondagens, mas nada que possa ser considerado definitivo.

Diferente do irmão, mostrou na Florida ser um republicano moderado, com ideias mais próximas dos democratas na área da Imigração (é casado com uma hispânica), o que lhe poderá provocar problemas na época de primárias (mas que lhe será muito útil na eleição geral, se lá chegar).
 
Já abandonou os cargos que tinham no setor privado (como consultor do Barclays ganhava mais de um milhão de dólares/ano) e tudo indica que vai mesmo avançar nos próximos meses.
 
Quem lhe poderá tirar a nomeação? Talvez Mitt Romney, nomeado em 2012, que perdeu a eleição geral para Obama, mas dá mostras de querer tentar terceira corrida. Em 2008 foi segundo, atrás de McCain. As sondagens não são más para ele, apontam a tal necessidade dos republicanos escolherem um nome da ala mais centrista e não muito à direita. Mas têm-se multiplicado as vozes que avisam o ex-governador do Massachussets para o erro que poderá ser uma nova tentativa, colando-lhe o rótulo de «loser». «Romney não deve candidatar-se, isso seria voltar para trás. O Partido Republicano tem outras soluções nesta fase», avisa George Will, na FOX.

A América não costuma ser um país de retrocessos, mas também é verdade que, em eleições presidenciais, já assistimos a «comebacks» notáveis...

Ainda numa área com boa possibilidade de captação de votos ao centro e até a algum setor democrata, pode aparecer Chris Christie, o popular e carismático governador da Nova Jérsia. Com fama de excessivo e credenciais de liderança, provou na catástrofe de supertempestade de dias antes da eleição de 2012 que é capaz de dialogar com o outro lado do campo político (e isso pode ser importante para os próximos anos da política americana).

Com menos hipóteses de nomeação, porque muito à direita no espetro político para uma eleição presidencial, estão outros nomes que se preparam para avançar: o ex-governador do Arkansas, Mike Huckabee; o senador pelo Kentucky Rand Paul; o senador do Texas, Ted Cruz; o senador da Florida, cubanodescendente, Marco Rubio; o ex-governador do Texas, Rick Perry.

Outros possíveis candidatos do lado republicano, mas não sendo muito provável que avancem, são Paul Ryan, congressista do Wisconsin e vice do ticket de Romney em 2012; Ben Carson, neurocirurgião negro; Scott Walker, governador do Wisconsin, que obteve boa vitória em novembro passado.

Nos próximos meses assistiremos, por certo, aos primeiros avanços oficiais e a grandes alterações na dinâmica da corrida.

O recente discurso de Obama no Estado da União, ao lançar desafio ao Congresso republicano de taxar os mais ricos e beneficiar a classe média para «uma economia que funcione para todos», pode, aliás, ser trunfo para Hillary na nomeação e, sobretudo, na eleição geral: é que a ex-secretária de Estado tem defendido, nos últimos anos, precisamente essa via e reforçou isso mesmo na reação ao discurso do Presidente: «Ele apontou o caminho para uma economia que funcione para todos», comentou Hillary, a seguir ao State of The Union 2015.

Para já, pelo menos, Hillary e Jeb partem na frente: novo duelo Clinton/Bush, 24 anos depois de um jovem governador do Arkankas derrotar, em 1992, o Presidente republicanos em funções?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»