Isto não é sobre Trump ou Hillary. Eles ficarão bem, seja qual for o resultado das eleições. Isto é sobre todos nós"

PAUL BEGALA, antigo conselheiro de Bill Clinton e de Hillary Clinton, minutos antes do primeiro debate, na CNN

 

1-0 para Hillary nos debates.

A expetativa era enorme: pela primeira vez, Clinton e Trump defrontavam-se ‘one to one’.

As sondagens anteriores ao duelo da Universidade de Hofstra apontavam para um quase empate, com Trump a aproximar-se bastante de Hillary, tanto no plano nacional, como nos estados decisivos.

E até tinham surgido, nas horas que antecederam o grande momento, algumas dúvidas sobre a capacidade física de Hillary para aguentar os 90 minutos de peleja.

Mas o resultado acabou por ser claramente favorável à democrata: Hillary apareceu super preparada, agressiva tanto no registo como no conteúdo, mostrando ter resposta pronta e bem informada sobre todos os temas que surgiram como fundamentais e capaz de cortar as vazas ao estilo de constante interrupção.

Em contraponto, Donald Trump reprovou largamente no ‘reality check’: de acordo com a contagem do Huffington Post,o republicano disse 16 mentiras e a democrata zero.

Sondagem CNN, feita logo a seguir ao debate, deu triunfo a Hillary por 62/27. E 18 dos 20 eleitores indecisos da Florida reunidos em 'focus group' atribuíram a vitória à candidata democrata.

Trump começou mais à defesa que o costume, tentou aparecer mais “presidenciável”, mas em poucos minutos acabou por passar ao ataque, insistindo na demonização de México e China e prometendo rever acordos.

Hillary falou em defender a classe média e em aumentar o salário mínimo. E passou também ela ao ataque, acusando Trump de favorecer os ricos, de não perceber a classe média e de negar alterações climáticas.

A democrata puxou dos galões dos anos Bill Clinton e Barack Obama, recordou os empregos gerados nesses períodos. Donald retaliou, interrompendo Hillary várias vezes. Chamou a adversária de “secretária Clinton” e acusou-a de ter demorado 30 anos a ter soluções.

Hillary demarcou-se do NAFTA (acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México), assinado pelo marido e defendido por Obama. Trump, nesse ponto, foi eficaz a identificar a divergência, que Hillary assumiu.

Mas Hillary vinha com tirada ensaiada após série de imprecisões de Trump: "Fact checkers, mãos à obra!".

Acusou Trump de ter um plano que aumenta a dívida, o adversário retalitou atirando Hillary para o “politics as usual”:“Ela fala bem e bonito, mas depois nada acontece”.

Sempre nesse registo, Trump acusou Janet Yelen, diretora da Reserva Federal, de ser “mais política que Hillary Clinton” e de estar artificialmente a segurar “uma bolha grande, gorda e feia”.

 

Hillary marca pontos com os impostos

Um dos momentos fundamentais do primeiro debate: Hillary a encostar Trump às cordas com a questão dos impostos.

Donald tentou divergir, estratégia que usa muitas vezes, e disse que liberta a declaração fiscal se Hillary divulgar «30 e tal mil emails». Clinton não largou o tema e acusou Donald de ter muito a esconder nessa declaração de impostos.

Ao seu estilo, Trump escorregou dizendo que simplesmente aproveita a possibilidade de não pagar impostos federais e que isso é um bom ato de gestão empresarial: será um registo aceitável para um candidato presidencial junto do eleitorado indeciso?

Perante a insistência de Trump num quadro de uma América insegura e exposta a um crime galopante, Hillary relativizou o discurso do medo de Donald: "O crime contra pessoas está mais baixo que em 1991, contra a propriedade desceu 40%".

 

“Birtherism” e política externa: mais problemas para Trump

Os temas que marcaram a parte final do debate correram claramente melhor a Hillary.

Trump deu explicação tosca para a reviravolta sobre o local de nascimento de Obama e voltou a insinuar que foi Hillary2008 quem lançou o tema (a democrata reagiu sorrindo).

Hillary, na resposta, acusou Trump de ter começado a carreira política com uma mentira de teor racista, ao insistir na questão do nascimento de Obama. Donald tentou, uma vez mais, virar a agulha, saltando da questão do local de nascimento de Obama para a luta contra o ISIS sem se perceber muito bem como.

Naquele que foi talvez o melhor momento de Hillary, a candidata democrata dirigiu-se diretamente aos aliados dos EUA dizendo que “os tratados de defesa serão respeitados”. Uma vez mais, a democrata estava a colocar-se em posição de credibilidade superior ao registo de Trump nesta área.

A parte da política externa ajudou, assim, a separar águas: Hillary elevada, responsável e sólida, Trump a não passar no“fact checking”.

O primeiro debate correu muito melhor a Hillary do que a Trump. Mas terá estado longe de ser decisivo: a 9 de outubro há novo duelo entre os dois, desta vez em formato ‘town hall’. Tudo continua em aberto.