Durante os últimos quinze dias, os portugueses fizeram um curso acelerado sobre política internacional, negociação diplomática e realpolitik através dos jornais, televisões, rádios e Internet. O motivo foi a eleição do próximo Secretário Geral das Nações Unidas, pois havia entre a dezena de candidatos um português, ex-Primeiro Ministro e ex-Alto Comissário da ONU para os refugiados, de nome António Guterres.

Se as notícias são efetivamente novidades do tipo menos expectável, a eleição de António Guterres no Conselho de Segurança e depois na Assembleia Geral das Nações Unidas são fortes razões para que seja o tema da semana em Portugal e que tenha feito, e faça, capa e artigos de todos os meios de comunicação globais.

Não é apenas o cargo, o seu relativo poder e o seu simbolismo global que o tornam notícia, mas sim o facto de ser o cargo mais exclusivo do planeta desde 1946.  Senão vejamos, o Prémio Nobel, seja da paz ou da química, é algo que consideramos ser um marco difícil de atingir, mas ser eleito para um prémio Nobel é, aparentemente, mais comum para a história de um país e para um cidadão do que ser eleito Secretário Geral das Nações Unidas. Senão vejamos, entre 1945 e 2015 os prémios Nobel foram entregues a cerca de 600 instituições e pessoas e, no mesmo período, tivemos apenas 9 secretários gerais das Nações Unidas – não contando com Gladwyn Jebb, cidadão britânico, que serviu como Secretário Geral interino entre Outubro de 1945 e Fevereiro de 1946.

Nos setenta anos das Nações Unidas apenas 9 países, de entre os seus atuais 193 estados membros, conseguiram eleger um seu nacional para o cargo. Não há um padrão único na escolha do país e da pessoa, pois já tivemos Secretários Gerais de países populosos como Egipto (91 milhões), Birmânia (54 milhões) ou Coreia do Sul (50 milhões) e pequenos e médios países como a Noruega (5 milhões), a Suécia (9 milhões), Portugal (10 milhões) ou Áustria (8 milhões) e outros como o Gana (27 milhões) e Peru (31 milhões). A eleição para a ONU, aprendemos todos nós esta semana, é fruto do contexto político e económico, do antagonismo de interesses nacionais, da capacidade negocial e da perceção do candidato não ser demasiado apoiado por nenhum dos cinco países com arsenais nucleares pródigos e direito de veto no conselho de segurança.

Não há estados membros da ONU sem impostos. E, também, não há hoje estados sem défices – segundo o FMI todos os 193 estados membros têm um défice acumulado duas vezes superior ao produto mundial bruto (talvez a única exceção seja a Alemanha, o que lhe confere o estatuto de anormalidade à escala mundial). Daí, não será de estranhar que a semana que hoje finda tenha tido como segundo tema noticioso o orçamento de estado para 2017 e que as pensões de reforma, a cobrança de impostos em 2016, a dieta fiscal para o próximo ano, o salário mínimo, as despesas na saúde, com a CGD e a banca com atividade em Portugal, tenham tido o foco da nossa atenção.

Secretários Gerais das Nações Unidas é improvável que nos próximos 100 anos voltemos a ter um, mas prémios Nobel é bastante provável, pelo que notícias não faltarão no próximo século.

 

 

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.