Graça Fonseca, secretária de Estado da Modernização Administrativa, revelou a sua homossexualidade e explicou o porquê desta "afirmação completamente política". É a primeira vez, em Portugal, que um responsável político em funções assume a sua homossexualidade numa declaração pública.

Em entrevista ao Diário de Notícias, Graça Fonseca diz que se assume como homossexual porque "não há muito quem o tenha feito".

"E acho que isso é importante. E há duas razões para eu achar importante dizê-lo".

Para a responsável pelo Simplex e pelo Orçamento Participativo é importante as pessoas afirmarem publicamente que são homossexuais para que a sociedade as comece a olhar para com empatia, até porque "é indiferente" se estão com um homem ou com uma mulher visto que isso "não altera em nada a forma" como trabalham.

Primeiro porque (...) a questão de haver poucos deputados ou membros do governo de um determinado grupo tem muito a ver com como é que olho para essas pessoas, como me relaciono com esse outro. E com que empatia. E acho que se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia. E se as pessoas perceberem que há um seu semelhante, que não odeiam, que é homossexual, isso pode fazer que a forma como olham para isso seja por um lado menos não querer saber se essas pessoas são perseguidas, por outro lado até defender que assim não seja. Mas mesmo que seja só deixar de não querer saber já é um ganho".

Apesar de considerar que, "na perspetiva de que a mudança não é algo que vem fácil", Portugal é um país conservador, a secretária de Estado considera que chegou a altura de dizer "eu sou homossexual" para ajudar a mudar mentalidades. Por isso, decidiu "abrir ligeiramente a porta porque pode ter um impacto positivo".

Porquê dizê-lo, então? Como é óbvio isto foi uma questão muito pensada. E na verdade não é uma questão da privacidade, é uma questão de identidade. Que é dizer "eu sou morena e tenho olhos verdes e sou isto". Aquilo que se faz com ser morena e de olhos verdes é que é uma questão da tua vida privada. E a partir do momento em que se percebe que há questões de identidade que ainda hoje são fundamento de ações violentas e discriminação, quando se pensa sobre o que fazer - vou abrir ligeiramente a porta porque pode ter um impacto positivo ou não vou abrir porque não é comigo - há um equilíbrio difícil. Mas como acho que as leis não bastam para mudar mentalidades, não bastam para mudar a forma como olho para o outro, que aquilo que muda a forma como olhamos para os fenómenos tem muito que ver com empatia..."

Para Graça Fonseca, o que importa é isso mesmo, que as pessoas comecem a sentir empatia com o seu semelhante.

Sentir que o outro é igual a ti. E isso pode ser tão importante como mudar as leis. E daí que a partir de certa altura possa ser importante ceder um bocadinho daquilo que achas que é uma parte da tua identidade que não tem de ser necessariamente pública porque achas que essa cedência pode ter um impacto positivo. (...) As pessoas são muito rápidas a julgar quando não têm a dimensão humana à frente. Quando não conhecem as pessoas envolvidas, se têm filhos, mãe, pai, se vão ao cinema... Não veem esses outros que lhes aparecem na TV como pessoas. Se começarem a ver as pessoas que de vez em quando aparecem na TV ou vão lá à terra, como é o meu caso, se a virem como pessoa, como ser humano, isso pode de alguma maneira, nem que seja inconscientemente, mudar a forma como veem algum tipo de fenómeno. Isto é a perspetiva otimista, que é a única coisa que me leva a pensar que vale a pena. Perspetiva negativa? É evidentemente haver tentativa de exploração".

A entrevista da responsável política tem sido amplamente comentada nas redes sociais, com a maioria dos utilizadores a concordarem com Graça Fonseca e a lembrar que, apesar de estarmos em 2017, "a entrevista faz sentido".