O general Lemos Ferreira afirmou, esta quarta-feira, que a exportação de armas era um assunto de «natureza política» que «passava ao lado» das suas funções como chefe do Estado Maior da Força Aérea e do conselho de chefes.

«Esse assunto foi sempre uma questão de natureza política e como tal passava ao lado do Conselho de chefes [militares]. O Conselho de chefes não se ia pronunciar sobre questões de ordem política, nunca se pronunciou sobre isso», afirmou, em resposta à deputada do PS Inês de Medeiros, na comissão de inquérito à tragédia de Camarate.

«Não me recordo» e «não sei» foram as expressões mais vezes proferidas pelo general em resposta às perguntas dos deputados na reunião da X comissão de inquérito, que visa averiguar as circunstâncias da queda do Cessna a 4 de dezembro de 1980.

À data, Lemos Ferreira era Chefe do Estado Maior da Força Aérea [de 1977 a 1984] e assumiu interinamente as funções de Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas durante as duas semanas da campanha eleitoral presidencial daquele ano, por Ramalho Eanes ser recandidato.

Membro do Conselho da Revolução por inerência das funções, Lemos Ferreira disse não se recordar de alguma vez ter sido discutido o tema da venda de armas ou mesmo o Fundo de Defesa Militar do Ultramar (FDMU), admitindo depois ter votado a favor da sua extinção.

Sobre o Fundo, Lemos Ferreira «sabia que existia» mas desconhecia «que saldos tinha».

Esse assunto era «diretamente gerido pelo CEMGFA [general Ramalho Eanes]», disse Lemos Ferreira, adiantando que a Força Aérea nunca usufruiu daqueles dinheiros, «nem para obras».

«Em 1980 [enquanto CEMGFA interino], que eu me recorde, não tratei de nenhum assunto relacionado com o Fundo», disse.

Lemos Ferreira disse que não tinha tempo para «entrar em coisas que não dissessem respeito» à Força Aérea, exemplificando que havia outras coisas, «como a cantina» das quais também desconhecia o funcionamento.

Enquanto Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, entre 1984 e 1989, Lemos Ferreira respondeu não se recordar se alguma vez foi abordado o tema do FDMU.

Questionado sobre a eventual participação de militares portugueses na venda de armas, Lemos Ferreira disse igualmente não se recordar e, quando questionado em particular sobre se conhecia Alpoim Calvão e a Fábrica de Explosivos da Trafaria, Lemos Ferreira respondeu que o assunto não lhe dizia respeito.

«Não faço a menor ideia se Alpoim Calvão vendia charutos ou outra coisa qualquer. Não me dizia respeito», disse.