José Formosinho Mealha, jornalista, morreu no último dia de Natal. Se fosse vivo teria feito 55 anos a 8 de Fevereiro. Nesse dia, a sua página no Facebook foi inundada com mensagens de «parabéns» ou «feliz aniversário» dos seus mais de 1400 "amigos". «Isso irritou-me muito», conta ao tvi24.pt Maria de Lurdes Mealha, irmã do falecido. Por isso, está decidida a tentar «apagar» o perfil de José no Facebook.

Jurista de profissão, Maria de Lurdes sabe que a tarefa não é fácil. Dois ou três dias após a morte do irmão colocou «um post» sobre o sucedido. Inicialmente, não pensou fechar a página, porque esta acabou por ser um espaço de homenagem e saudade «de quem o estimava». Mas a forma como as mensagens sobre a sua morte foram ignoradas, deixa-a indignada: «Ainda hoje recebe convites de amizade ou para jogos idiotas. Não faz sentido».

Uma amiga morreu há dois dias e Maria de Lurdes Mealha teme que também no caso dela a morte seja ignorada no Facebook. Como não conhece a palavra-passe do irmão para poder fechar a conta, o único caminho será contactar os responsáveis pelo serviço e «provar a morte do irmão».

Deixar decisão no testamento?

«Estamos perante uma nova realidade», afirma ao tvi24.pt Isabel Cruz, secretário-geral da Comissão Nacional de Protecção de Dados. Como tal, talvez «as pessoas devam pensar bem quando se inscrevem nessas páginas. Talvez possam equacionar o que pretendem e deixar isso escrito em testamento, como deixam tantas outras coisas. O mais simples seria partilhar essa informação, em vida, com alguém», afirma Isabel Cruz.

Uma coisa é certa: «Não há legislação em Portugal sobre estas matérias. E duvido que algum país a tenha», conclui a responsável. «Terá sempre de passar por contactar os responsáveis pelo serviço, na maioria das vezes, no estrangeiro».

Mas as dúvidas de Isabel Cruz são muitas: «Se não há indicações, como pode a família ter certeza que aquela pessoa quereria apagar o perfil? A memória também perdura para além da vida do internauta. Será que a pessoa preocupar-se-ia realmente com a situação?»

Apesar de compreender o lado das famílias, não tem dúvidas que, «por agora, deve prevalecer o bom senso». Além do mais, mesmo que se «apague um perfil, a pessoa não desaparece. E esse parece ser um problema insolúvel da internet».

Por exemplo, se a pessoa participou em fóruns ou em actos oficiais basta «uma pesquisa no Google para encontrar o seu nome». «Tal como a memória não se apaga, a pessoa também não se consegue apagar da Internet. A questão não é só acabar com um perfil, é mais ampla».

Até hoje a Comissão nunca foi contactada para «ajudar» num caso semelhante a este.

Relembrar António Feio

O actor António Feio morreu a 30 de Julho de 2010. Perdeu a guerra contra o cancro, mas a sua luta foi seguida e apoiada por milhares de fãs, no Facebook, durante meses.

Uma amiga criou uma página de fãs e deu permissão ao actor para ser administrador. «Ele sentia orgulho no evoluir da página e no enorme número de fãs que o seguiam. Gostava de ter todos actualizados», conta ao tvi24.pt Catarina Feio, uma das filhas.

Depois de tudo o que «viram, a atenção que o pai dava à página e o carinho que dizia sentir», a família não teve dúvidas «em manter o perfil». Desde que o pai faleceu a família fez poucos posts: «Talvez uns três ou quatro. Apenas informação realmente importante». «Até porque», explica, «os fãs alimentam a página e o número de seguidores continua a crescer». Por isso mesmo, a filha sente que «se justifica que a página exista e persista».

Além desta página de fãs, António Feio também tinha uma pessoal. Esta também continua disponível, mas já não é possível actualizar. Catarina afirma que nunca comunicou a morte do pai ao Facebook, mas que alguém o deve ter feito. O serviço fez algumas alterações na página, mas nada que «a choque».