«Não consigo viver neste sofrimento, não suporto ouvir falar da escola. Não vou conseguir dar mais aulas». Estas palavras são extraídas da carta que José António Martins escreveu à mulher antes de se suicidar. Delmira Figueiredo, professora de Educação Visual e Tecnológica na Escola EB 2,3 do Caramulo, conta ao tvi24.pt que o marido «era uma pessoa muito amada na escola, estimado e respeitado pelos alunos e pelos colegas», mas que «há algum tempo andava desesperado e frustrado por se sentir incapaz de cumprir com o ideal do professor».

«Ele achava que tudo o que estava a ser feito na escola não tinha sentido. Sentia que era uma perseguição aos professores e que o que passava para a opinião pública era de que os professores não faziam nada. E culpava a anterior equipa do Ministério da Educação», conta Delmira Figueiredo.

O que leva um professor a suicidar-se

No tempo em que era feliz, José António Martins preparava aulas diariamente durante horas e horas. Deixou de ser feliz no dia em que deixou de ter tempo para ser professor, um bom professor. Foi no dia em que a ministra Maria de Lurdes Rodrigues criou um novo modelo de docência, que ele entendeu como mais burocratizado, sem alma, nem objectivos pedagógicos, que o obrigava a permanecer na Escola horas a fio sem proveito para ninguém, muitas vezes atulhado em tarefas burocráticas, e que acabam por relegar para «segundo plano» aquilo que ele mais valorizava: preparar e dar aulas, estar com os alunos.

«Escolas são ilhas de tirania»

Nos 19 anos em que foi professor, José António Martins foi director de turma, delegado de disciplina, coordenador de departamento e coordenador de projectos. Diz a mulher que ele lutou incansavelmente por uma Escola que não era aquela que lhe ia sendo imposta. José António queria uma Escola com professores que dispusessem de tempo para investigar e desenvolver currículos, e não uma que ele sentia estar a desprestigiar os professores, sobrevalorizando os que há muito não preparavam uma aula.

«O ambiente da escola já não era o que ele sempre conheceu: a avaliação era injusta, na medida em que já não premiava os melhores», refere Delmira Figueiredo. «O meu marido empenhou-se arduamente na luta que estavam a fazer à Escola, lutou com todas as armas que tinha: participou em manifestações, marchas, concentrações nacionais e regionais, reuniões de esclarecimento», acrescenta.

Delmira Figueiredo acredita que o marido se esgotou nessa luta. Nos últimos tempos de vida, José António Martins, que até então «não falava noutra coisa a não ser na escola», passou para o silêncio. Deixou de falar da escola, deixou de se importar com as notícias e de comentar os «erros» da política educativa que antes o mobilizavam. José António Martins calou-se. A mulher e os que com ele privavam pensaram que ele se tinha «conformado, que tinha entendido que não ia mudar o mundo, que tinha de funcionar com as regras...».

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Perto do fim, quando já «nem sequer queria ir à escola», recorda Delmira Figueiredo, José António Martins ainda procurou a ajuda de um psiquiatra. «Se a escola lhe está a fazer isto, então não vai à escola», ouviu do clínico. A baixa médica e a medicação não amenizaram a espiral de sofrimento. Soçobrou.

Delmira Figueiredo não tem dúvidas: «O suicídio do meu marido teve toda a relação com o que ele estava a fazer como professor. O meu marido foi vítima de uma violência extrema que partiu de cima».