A nobre missão de salvar vidas por mar, terra e ar

Foi com um resgate marítimo que o chefe Raulino Ventura recebeu um memorável reconhecimento nacional pelas mãos da Liga dos Bombeiros Portugueses. Com um percurso de mais de 35 anos, Raulino também não esquece outros episódios marcantes, como um salvamento feito por helicóptero numa das maiores tragédias da ilha de São Miguel.  

“Vida por vida” é o lema que os bombeiros portugueses adotam por terra, mar e ar. E essas três palavrinhas estão na origem de grandes atos heroicos.  

O chefe Raulino Ventura foi o protagonista de uma dessas façanhas memoráveis. Fazendo parte da corporação de Ribeira Grande, em São Miguel, nos Açores, o bombeiro arriscou a sua vida para salvar um jovem checo, com cerca de 20 anos, das águas agitadas da Praia de Santana, na freguesia de Rabo de Peixe (São Miguel), em julho de 2015. 

Tudo começou quando o alerta chegou ao quartel e Raulino saiu rapidamente numa ambulância de socorro, juntamente com uma outra bombeira. Consigo só trazia uma boia circular com uma corda com uns 20 metros: naquele dia, a embarcação de socorro estava avariada e a mota de água fazia parte do dispositivo de segurança do evento desportivo Sata Rallye Açores, na Lagoa das Sete Cidades.

Numa luta contra o tempo, enquanto ia para a Praia de Santana, Raulino tentou elaborar uma estratégia de salvamento, mesmo sem contar com todos os equipamentos necessários.

Nunca, em momento algum, o chefe duvidou do sucesso desta missão. 

Quando chegou à Praia, apercebeu-se de que só tinha uma única opção: despir a farda e atirar-se à água. Encontrando-se a 50 metros da costa, a vítima estava prestes a largar a rocha que ainda a salvava do afogamento certo. O náufrago estava no limite das suas forças.

Com a hesitação no mínimo e a confiança no máximo, Raulino entrou no mar e nadou até se aproximar da vítima para lhe dar a boia. Depois, o chefe teve sangue frio suficiente para, no meio daquela situação extrema, transmitir alguma segurança e calma. 

Felizmente, Raulino conseguiu trazer o checo até à beira de água, onde o jovem recebeu os primeiros socorros, tendo sido, de seguida, transportado para o hospital.

Resgate arriscado trouxe uma distinção memorável

Mais de dois anos depois de um salvamento tão especial, o chefe recorda-se na perfeição de todos os instantes: “É um momento inesquecível por todo o esforço físico envolvido. Acabei por correr alguns riscos, visto que não tenho uma formação específica na área da natação.” 

Graças a esta missão marcante, Raulino recebeu o Prémio Bombeiro de Mérito 2015, da Liga dos Bombeiros Portugueses: “Sem dúvida que esse reconhecimento é bastante importante. Até agora, nos Açores, sou a única pessoa que recebeu o Prémio.”

Desde o dia do salvamento que o chefe nunca mais voltou a ver o náufrago: “É algo de que tenho muita pena. Após o resgate, ainda falei um pouco em inglês com ele para saber há quanto tempo estava na água, por exemplo. Mas depois o jovem foi para o hospital e nunca mais o vi. Ele estava de passagem pelos Açores. Fiquei com pena, porque queria falar um pouco com ele para trocarmos impressões sobre tudo o que se passou.”

Ser bombeiro é ter força de vontade

Embora o grande reconhecimento tenha chegado com um resgate marítimo, no seu percurso de mais de 35 anos, Raulino Ventura também ficou marcado por um salvamento feito por via aérea: “Tudo aconteceu em 1997, quando houve uma derrocada na Ribeira Quente [uma freguesia de São Miguel]. Participei no teatro de operações, tendo feito o deslocamento de feridos por helicóptero. Fizemos tudo o que podíamos, mas, mesmo assim, faleceram 29 pessoas.” 

Porém, o coração de um bombeiro também guarda muitas alegrias: “O nosso dia a dia é preenchido por ocorrências que têm um final feliz. Por exemplo, tenho ajudado em alguns nascimentos. Já participei em, pelo menos, uma dezena de partos.”

Foi para ajudar os outros nos piores e melhores momentos que Raulino escolheu ser bombeiro, uma função que sempre o fascinou desde pequeno: “Quando era criança, vivia ao pé do quartel dos bombeiros da Ribeira Grande e habituei-me a vê-los a entrar e a sair para dar conta das ocorrências. Foi a partir daí que fiquei cada vez mais curioso sobre esse trabalho.”

Aos 14 anos, Raulino entrou para a fanfarra e aos 16 começou o seu percurso como bombeiro voluntário precisamente no quartel que acompanhou desde a infância. Entretanto, em 1994, tornou-se funcionário da Associação Humanitária, dedicando-se ao treino, formação e motivação de cadetes. 

Ou seja, nestes anos todos, a vida de Raulino mudou bastante. O mesmo não se pode dizer de algumas dificuldades por que a corporação da Ribeira Grande continua a passar, como a falta de certos equipamentos: “Por vezes, há alguns equipamentos que avariam e não temos orçamento suficiente para arranjá-los. Noutros casos, não temos dinheiro para adquirir novos… Por exemplo, neste momento, precisamos de substituir as ambulâncias, que já têm alguns anos e estão constantemente avariadas.” 

A ligação com a comunidade da Ribeira Grande é um outro traço que permanece imutável: “Estamos sempre abertos à população. Por exemplo, as instalações da Associação costumam receber diversas exposições commuito público. Além disso, é habitual serem feitas visitas escolares ao quartel para que os mais pequenos conheçam melhor o nosso trabalho.”

Para Raulino, não há dúvidas: ser bombeiro é ter disponibilidade, gosto e força de vontade para ajudar os outros, sem hesitações e com muito empenho.

Reconhecendo todas estas qualidades do trabalho de bombeiro, o Grupo Mosqueteiros (que detém os supermercados Intermarché), em parceria com a Liga dos Bombeiros Portugueses, lançou o livro infantil “Bombeiro dos pés à cabeça”, cujas receitas revertem para a compra de equipamentos que ajudem os nossos “soldados da paz”. 

O preço é de 1,99 euros e o livro conta com um prefácio escrito pela apresentadora Isabel Silva, que também é a embaixadora da campanha juntamente com Manuel Luís Goucha. 

“Bombeiro dos pés à cabeça” está à venda até ao próximo dia 31 nos espaços Intermarché, Bricomarché e Roady.