José Filomeno dos Santos, filho do ex-presidente José Eduardo dos Santos, está na iminência de ser afastado do Fundo Soberano de Angola (FSDEA), que gere a riqueza do país.

A notícia foi avançada pelo próprio presidente João Lourenço, nesta segunda-feira, segundo a agência Reuters, num dia em que tem lugar a sua primeira conferência de imprensa com mais de uma centena de jornalistas de órgãos nacionais e estrangeiros, e que assinala 100 dias de governação.

Não diria que vou exonerar, mas pode vir a acontecer”, disse João Lourenço, informando que uma empresa idónea fez o diagnóstico às contas do FSDEA e, na sequência desse trabalho, o Ministério das Finanças apresentou uma proposta de medidas a serem tomadas, para melhor controlo “dos dinheiros postos à disposição do Fundo Soberano”.

“Estou a analisar essas medidas propostas e é muito provável que nos próximos dias venham a ser implementadas”, acrescentou.

A continuidade de Filomeno dos Santos à frente do FSDEA vai depender das conclusões de uma auditoria externa às contas e desempenho do Fundo, que deverá ser conhecida nos próximos dias.

O Fundo Soberano de Angola, com uma dotação de cinco mil milhões de dólares, tem sede em Luanda e gere uma carteira significativa de investimentos, com o objetivo de "promover o crescimento, a prosperidade e o desenvolvimento socioeconómico em Angola", segundo a informação que consta no seu site.

Em novembro de 2017, surgiram denúncias sobre a gestão do FSDEA, relativamente ao suposto recurso desta instituição a paraísos fiscais.

Desde que assumiu o cargo, João Lourenço já realizou mais de 300 nomeações, que corresponderam a várias dezenas de exonerações que lhe valeram a alcunha nas redes sociais de “O exonerador implacável”. João Lourenço nomeou por dia, em média, mais de três de administradores, para cerca de 30 empresas públicas, órgãos da administração do Estado, Justiça, comunicação social estatal, Banco Nacional de Angola e outros organismos.

Foram “tantas quantas as necessárias”, respondeu hoje, a propósito, o chefe de Estado.

Apesar de ter deixado a presidência angolana, José Eduardo dos Santos mantém-se líder do MPLA, partido no poder desde 1975, com mandato até 2021, e ainda não se referiu publicamente às mudanças que João Lourenço tem vindo a implementar, nomeadamente ao afastamento dos filhos de lugares chave em poucas semanas.

É o caso de milionária empresária Isabel dos Santos, exonerada de presidente do conselho de administração da petrolífera Sonangol, ou da empresa Semba Comunicação, que tem como sócios os irmãos Welwitshea ‘Tchizé' e José Paulino dos Santos ‘Coreon Du', filhos do ex-chefe de Estado angolano, que perdeu a gestão do canal 2 da televisão pública angolana.

Estas medidas fizeram disparar o apoio popular a João Lourenço.

A pessoa exonerada [Isabel dos Santos] não era da oposição. Não estou a ver por que razão exoneraria por falta de confiança política. As exonerações, regra geral, não são justificadas. O nosso país está independente há 42 anos, não me recordo nunca de nenhum presidente ter vindo a público justificar-se porque é que exonerou A, B ou C”, observou João Lourenço.

À espera da promessa de Eduardo dos Santos

João Lourenço não sente crispação com o ex-chefe de Estado José Eduardo dos Santos, mas aguarda que aquele cumpra o compromisso anteriormente assumido de deixar a liderança do partido em 2018.

Só a ele compete dizer se o fará, se vai cumprir com esse compromisso. Quando isso vai acontecer, só a ele compete dizer”, disse o presidente da República, que falava nos jardins do Palácio Presidencial, em Luanda.

Questionado sobre a alegada tensão que mantém com o ainda presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido no poder em Angola desde 1975, João Lourenço negou qualquer problema. 

“Não sinto essa crispação nas nossas relações”, afirmou, acrescentando que mantém “relações normais de trabalho” com José Eduardo dos Santos, negando qualquer bicefalia na governação em Angola, até porque “nada está acima da Constituição”, ambos trabalhando em “campos distintos” e com “cada um a cumprir o seu papel”.

Oito dias [do mês de janeiro] não é nada. Vamos aguardar os próximos tempos”, considerou, sobre o anúncio feito em 2016 por José Eduardo dos Santos, que disse abandonar a vida política em 2018.