O primeiro-ministro afastou hoje riscos de instabilidade política a prazo em Portugal e considerou que os resultados económico-financeiros do país resultaram de uma mudança de políticas internas, mas sem mudanças nos objetivos na frente europeia.

Estas posições foram assumidas por António Costa em entrevista ao jornal diário italiano La Repubblica, concedida durante o seu terceiro dia de presença no Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça.

Já na parte final da entrevista, o primeiro-ministro foi questionado sobre a viabilidade a prazo de um Governo minoritário socialista suportado no parlamento por outras três forças políticas de esquerda (Bloco de Esquerda, PCP e PEV) e que possuem ideologias distintas.

É um Governo muito estável. Desde que entrou em funções já foram aprovados três orçamentos do Estado (2016, 2017 e 2018), faltando apenas um até ao final da legislatura. Até agora, nunca houve problemas em questões consideradas fundamentais para o país", defendeu o líder do executivo português.

António Costa sustentou depois que o seu Governo contrariou teses antes instaladas no pensamento político-económico e demonstrou que "é possível compatibilizar compromissos internos, virando-se a página da austeridade, com os compromissos assumidos pelo país no quadro da União Europeia".

"Adotámos uma combinação diferente de políticas. Mudámos de políticas sem mudarmos de objetivos", acentuou o primeiro-ministro, atribuindo sobretudo ao fator confiança a base para recuperação económica e financeira de Portugal nos últimos anos.

Neste ponto, António Costa falou de forma desenvolvida sobre as "consequências positivas" de medidas como o fim dos cortes salariais e nas pensões, a eliminação da sobretaxa de IRS, ou a descida do IVA da restauração.

Mais importante do que o aumento do consumo em resultado dessas medidas foram as subidas verificadas ao nível do investimento e das exportações", defendeu.

Ainda no plano interno, António Costa foi interrogado sobre as razões que terão levado a multinacional norte-americana Google a abrir em Portugal um "hub" para a Europa, Médio Oriente e África, que numa fase inicial empregará cerca de 500 quadros qualificados.

Portugal é um país com segurança, com uma imagem agradável e com qualidade de vida, mas que também possui uma geração jovem muito qualificada e com boa capacidade de interação com o exterior, numa tradição de abertura cultural", respondeu.

No plano europeu, o primeiro-ministro considerou que a eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo constituiu um sinal de mudança, dando como exemplo, em seguida, que uma matéria como a reforma da zona euro "deixou de ser encarada como um tabu".

Neste contexto, o primeiro-ministro classificou como questão "chave" da União Europeia o aumento da sua capacidade orçamental e advogou que o conjunto de novas políticas a adotar na Europa tem de basear-se necessariamente no princípio da convergência.

Durante a entrevista, apesar da insistência da jornalista italiana, António Costa evitou fazer críticas sobre a atuação do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que hoje chegou a Davos.

António Costa, porém, referiu que a União Europeia tem uma oportunidade na nova conjuntura mundial.

A Europa deve aproveitar as oportunidades abertas no comércio internacional, recusando o protecionismo e defendendo em contrapartida uma regulação da globalização", acrescentou.