O subcomissário da PSP acusado de agredir um jovem em Guimarães afirmou hoje que a acusação “é completamente falsa” e disse mesmo que alguns factos que nela constam devem ter sido inspirados “em séries norte-americanas”.

No início do julgamento, no Tribunal de Guimarães, o subcomissário Filipe Silva, que está acusado de agredir um jovem a pontapé e à bastonada, na via pública, garantiu que no dia dos factos não tinha qualquer bastão.

Disse ainda que as bastonadas foram desferidas por um outro subcomissário que o acompanhava, João Lopes, versão que este confirmou.

Filipe Silva explicou que o jovem, acompanhado de três colegas, estava embriagado e terá dirigido expressões injuriosas e ameaçadoras aos elementos da PSP.

Deu-lhe ordem de detenção e tentou manietá-lo para o algemar, mas ele ofereceu resistência, agarrando-lhe um braço.

João Lopes interveio, dando “duas ou três bastonadas” no jovem, que foi projetado para o chão e algemado, depois de uma “luta” que terá demorado dois minutos.

“Tudo como mandam as normas de execução permanente”, assegurou Filipe Silva.

Esta versão foi corroborada por João Lopes que, na qualidade de testemunha, assumiu a autoria das bastonadas, mas negou quaisquer outras agressões ao jovem, tanto da sua parte como da parte de Filipe Silva.

João Lopes disse ainda que, na altura, só ele é que tinha bastão.

Já o jovem afirmou que foi agredido por Filipe Silva com bastonadas e pontapés “pelo corpo todo” e ainda que o arguido lhe colocou “uma bota na cabeça”.

“Fiquei com seis marcas de bastonadas nas costas”, acrescentou.

Segundo a acusação, os factos remontam a 29 de março de 2015, perto das 07:00, quando uma patrulha da PSP, que incluía Filipe Silva, deparou com um grupo de jovens a urinar na via pública.

Segundo a acusação, os polícias perguntaram quem tinha urinado para a via pública e um dos jovens, que estava “visivelmente sob efeito do álcool”, não gostou da abordagem e dirigiu-lhes algumas expressões, dizendo nomeadamente que urinar “no valado” não é crime e que se tivesse vontade o faria outra vez.

Na reação, e ainda de acordo com a acusação, Filipe Silva obrigou esse jovem a colocar-se de joelhos, deu-lhe um pontapé nas costas, desferiu várias pancadas com o cassetete nas costas, braços e pernas e colocou-lhe a bota em cima da cabeça.

“Isso [obrigar a colocar de joelhos] é fruto de imaginação, de séries norte-americanas”, reagiu o arguido.

Ainda segundo a acusação, o jovem foi conduzido à esquadra de Guimarães, “onde foi obrigado a permanecer algemado cerca de três horas, sem receber tratamento médico, apesar de estar com lesões visíveis e de o ter solicitado, pois estava com dores por todo o corpo”.

No processo, Filipe Silva é ainda acusado de ter feito constar do auto factos “que não correspondem à verdade”, já que, acrescenta a acusação, “em momento algum” o ofendido ameaçou, tentar manietar ou ofereceu resistência aos polícias que o abordaram.

Considera ainda a acusação que “nada justificava” a força usada pelo arguido e que este atuou “com grave abuso de autoridade” e “de forma ilegítima e excessiva, abusando dos meios coercivos de que dispunha no âmbito dos poderes funcionais que lhe foram legalmente conferidos”.

Filipe Silva está acusado de ofensa à integridade física qualificada, falsificação de documento e denegação de justiça e prevaricação.

Dois meses após estes factos, Filipe Silva agrediu dois adeptos do Benfica, no exterior do Estádio D. Afonso Henriques, também em Guimarães, um processo cujo julgamento já decorreu, estando a leitura do acórdão marcada para 28 de junho.