Há mulheres na África Ocidental imunes ao ébola, mas ao mesmo tempo homens com vestígios do vírus no sémen nove meses depois de terem sido infetados. E a enfermeira britânica Pauline Cafferkey, que tinha sido dada como curada, está em estado crítico. Não há um padrão na evolução da doença, um mistério que está a dar dores de cabeça aos cientistas.  

Analisemos os últimos casos: sobre as mulheres imunes ao vírus,  a descoberta foi feita por uma equipa de cientistas europeus que se encontra na Guiné a avaliar sobreviventes.
 

Estas são mulheres fenomenais que tiveram uma história horrível para contar. Elas foram severamente expostas ao vírus, com quadros de vómito, diarreia. Dormiram ainda com crianças contaminadas. Mas, apesar disso, nunca apresentaram o “Ebolasymptoms” e ,de certa forma,  são imunes ao vírus", disse o virologista Miles Carroll.

 
A equipa estudou 60 mulheres, 25 delas de Guéckédou, a cidade onde se pensa que começou a epidemia mais recente do vírus. Os exames realizados ao sangue revelaram ainda que uma das mulheres criou anticorpos ao Ébola, embora nunca tenha contraído o vírus.
 

"Nós testamos o sangue dela durante oito meses depois, e em maio de 2015 ela apresentava uma resposta de anticorpos neutralizantes simplesmente fenomenal - disse Carroll, que também é chefe de pesquisa da infeção pelo Serviço Nacional de Saúde Pública de Inglaterra.
 





Este é precisamente o dado que chama mais à atenção. Estas mulheres, apesar de terem estado em contato com pessoas que morreram com o vírus ébola, nunca manifestaram sintomas da doença.

No entanto, a descoberta é desconcertante porque o Ébola é altamente contagioso, sendo transmitido através de fluidos corporais, como saliva, sangue, urina, vómito e fezes.  
 
"Talvez estas mulheres possam ser  geneticamente únicas, tendo uma resposta inata e forte o suficiente para lutar contra o ébola antes que este possa ganhar força"

 
Os primeiros dados da pesquisa também explicam as razões para que os sobreviventes não tenham contraído o vírus pela segunda vez, apesar de apresentarem vestígios nos testículos, espinal medula ou nas órbitas dos olhos. Neste sentido, o estudo pode ser uma boa notícia para os 16.000 sobreviventes, espalhados pela Serra Leoa, Libéria e Guiné.

Mas as dúvidas não ficam por aqui. A enfermeira Pauline Cafferkey que recebeu alta de um hospital de Londres há nove meses, aparentemente curada da doença, está agora gravemente doente. O caso está a chocar os especialistas. 




Para além do caso das mulheres imunes ao vírus, do caso da enfermeira Cafferkey, surgiu outra descoberta surpreendente. Os cientistas descobriram que o vírus consegue sobreviver no sémen dos homens por nove meses, muito mais tempo do que se pensava. Ou seja, aqueles que pareciam curados, podem ser portadores do vírus, o que está a baralhar a investigação.

Ao mesmo tempo, na Serra Leoa foi realizado um outro estudo feito ao sémen de 93 homens que sobreviveram ao vírus, encontrando-se vestígios de ébola distribuídos da seguinte forma:

-  100%  indivíduos (nove em cada nove testados) depois de três meses
-  65% indivíduos  (26 de 40 testados) entre quarto a seis meses
-  26% indivíduos (11 de 43 testados) entre sete a nove meses
 

 10 meses depois do inicio dos sintomas, o vírus não foi detetado em nenhum dos indivíduos.
Nós ainda não temos dados sobre até que ponto a correlação entre e a positividade [no teste] está associada à infectividade do vírus ", afirmaram os médicos à BBC.


Os homens vão continuar a ser seguidos e as amostras vão sofrer novas análises para se determinar se o vírus está realmente vivo. 

A Organização Mundial da Saúde revelou que a transmissão sexual é "rara" e deu como exemplo áreas da Serra Leoa que apresentam números muito elevados de sobreviventes, sem recaídas. Margaret Chan, diretora-geral da OMS, disse à BBC que ainda havia dúvidas sobre o que significa um resultado positivo num teste. 

"Será que isso significa que eles ainda estão infetados ou são apenas fragmentos? Ainda não temos uma resposta definitiva".


Apesar de a última epidemia de Ébola ter sido dada como controlada, as dúvidas ainda são muitas. Prevê-se um longo caminho até se encontrarem todas as respostas.