Confesso que sou há mais de 15 anos um ávido leitor do Questionário Proust, na versão que a revista Vanity Fair publica na sua última página. E há muito tempo que penso na ideia de transpor este exercício para televisão.

É agora. Chamei-lhe  «Questionário Íntimo».

O programa é baseado nas famosas respostas que o escritor Marcel Proust deixou a 35 perguntas. A banalidade de algumas das questões é surpreendida pela genialidade e franqueza absoluta das respostas. Não é uma entrevista. E não desejo a espontaneidade da resposta. Pelo contrário: os convidados saberão sempre quais são as perguntas, porque a ideia é que reflitam devidamente sobre a resposta a dar. O resultado final espero que seja  verdadeiramente surpreendente: seja pelos convidados neste contexto concreto; seja pela honestidade que cada um decidir colocar nas respostas, ou pelas réplicas que eu tiver capacidade de introduzir.

Mas é um exercício de responsabilidade também. De respeito para com as pessoas que aceitam o escrutínio de facetas da sua vida muitas vezes apenas do conhecimento do próprio. E mesmo quando a verdade absoluta ficar mais longe... aquilo que cada um não disser também ajudará a traçar o retrato final.

Não espero um «mero questionário» de banalidades;  procuro sim, com este exercício, colocar no espaço público uma dimensão de verdade, honestidade, franqueza de que o país e os portugueses carecem. Concorde-se ou não com as verdades de cada um.

No final do século XIX era popular entre a burguesia francesa um «jogo» de salão que consistia num conjunto de perguntas  que visavam conhecer melhor as pessoas que se reuniam em cada círculo, em cada tertúlia, em cada evento. Ficou conhecido para a posterioridade como «O Questionário Proust», não por ter sido Marcel Proust (o autor de «Em Busca do Tempo perdido») a formular as perguntas, mas sim pelas respostas  absolutamente francas e desarmantes que o escritor deu a essas perguntas. Neste programa, portanto, o pressuposto é que cada entrevistado partilhe desta ideia e confira a maior veracidade e honestidade possível às perguntas.

O compromisso é sempre o do bom gosto e do respeito pelas fronteiras íntimas que cada um entender estabelecer. Uma nota especial sobre o título – «Questionário Íntimo»: o que pretendo é que seja cada convidado a definir as  fronteiras da intimidade que aceita partilhar: intimidade da mente, do pensamento, do comportamento, dos afetos, dos sonhos, dos medos... para que no final o espetador tenha uma ideia mais real sobre o sentido da vida de cada um, levando, cada um dos espetadores, a interpelarem-se a si próprios.

O meu questionário íntimo
 
As perguntas parecem, e são de facto!, simples. Mas eternas. E a resposta a estas perguntas anda arredada da vida dos portugueses há demasiado tempo.

O que buscamos são as respostas de cada um, neste momento concreto, sobre amor, felicidade, medos, sonhos, o sentido da vida...
 
São então estas as minhas respostas, em Fevereiro de 2015, às perguntas a que Proust respondeu por duas vezes, de forma diferente, em 1884 e 1889.
 
1     Qual é a sua ideia de «felicidade perfeita»? 

Um fim de tarde ameno, uma brisa ligeira, o céu azul a transformar-se em lilás e laranja. Uma das músicas favoritas em fundo, em que se misturam as vozes dos meus filhos. Uma mão que acaricia. Um abraço à distância de um olhar, um copo de espumante ou um gin... Harmonia, serenidade, amor. Boa energia. Tem de   ter por perto um lago, o mar, ou um rio para nos lembrar permanentemente da Natureza.

2      Qual é o seu maior medo?
              
Não confesso.

3      Qual a característica que mais lamenta em si próprio?
            
 
A dificuldade de me perceber a mim tão bem e intuitivamente como faço com os outros.

4      Qual a característica que mais lamenta nos outros?
              
A cobardia de espírito.

5      Que pessoa viva mais admira?

Stephen Hawking – por tudo o que passou, pelo que sentiu, pelo que pensou, e pelo que escreveu, incluindo a sua autobiografia “A minha breve história”.

Malala Yousafzai, a Prémio Nobel da Paz mais jovem de sempre. É um sinal de renovação com esperança
 
6      Qual é a sua maior extravagância?
              
Legos.

7      Qual é o seu atual estado de espírito?

O de sempre: inquieto, por um lado, e sempre em busca da harmonia, da realização pessoal e da paz que se encontra nalgumas pessoas, nalguns momentos e nalguns locais.

8      Qual é a virtude que considera mais marcante?
              
A liberdade de espírito.

9      Em que ocasiões mente ?
              
Quando não quero magoar os que amo.

10    Do que gosta menos na sua aparência?
              
Da barriguinha...

11    Que pessoa viva mais despreza?
             
Todos os que incitam ao ódio, e à incompreensão. Os tolos. E os que manipulam consciências.
     
12    Que qualidade mais aprecia num homem?
              
A ousadia de pensar diferente. E explicá-lo aos outros.

13    Que qualidade mais aprecia numa mulher?
              
A ousadia de pensar diferente. E explicá-lo aos outros.

14    Que palavras ou expressões utiliza com mais frequência?
             
  «Chiça, penico»

15    Quem ou o quê é o maior amor da sua vida?

Contorno a pergunta e respondo: As imagens gravadas no meu cérebro e no meu corpo dos momentos felizes com quem amo. Porque isso ninguém me rouba, disso ninguém me pode espoliar.

16    Quando e onde foi mais feliz?

Talvez um fim de tarde, na praia, quando levantei os olhos de um livro sobre Einstein e a extraordinária dificuldade de entendermos a passagem do tempo, e nesse momento as minhas filhas saíram a correr, de mão dada, em direção ao mar. Nesse momento, por causa do livro, percebi que aquele momento jamais se repetiria em toda a minha vida. Ter percebido isso fez-me imensamente feliz.

17    Que talento mais gostaria de ter?

Tocar bem o piano

18    Se pudesse mudar UMA coisa sobre si, qual seria?

A minha dependência emocional de tudo o que me faz bem.

19    Qual considera ser a sua maior conquista?

Os meus filhos, a minha liberdade, a minha carreira. Por esta ordem.

20    Se morresse e voltasse à vida como uma coisa, um animal ou uma planta, qual seria?

Uma árvore de folha caduca, para poder apreciar o passar do tempo.

21    Onde gostaria de viver?

Num dos estados da Nova Inglaterra - Maine, Vermont, New Hampshire, Connecticut... Junto de um lago, ou um rio, rodeado de árvores, para saborear a cadência das estações do ano.

22    Qual é o seu bem mais precioso?

São as fotografias, as músicas, os livros e os filmes em que renasci, me revi, amei e me revoltei. E a minha coleção de Legos.

23    O que considera ser a fonte da maior angústia?
              
Os impostos.

24    Qual é a sua ocupação preferida?

Contemplar, e, em simultâneo, ser surpreendido. E depois... aprender com isso.

25    Qual é a sua característica mais acentuada?
              
A capacidade de observar.
     
26    O que valoriza acima de tudo nos seus amigos?

A fraternidade. A dos que não me abandonam, mesmo que eu não tenha sido capaz de ser sempre recíproco.

27    Quem são os seus escritores preferidos?
              
Bruce Chatwin, Fernando Pessoa, Alain de Botton, Marcel Proust.
      
28    Qual é o seu herói na ficção?

Luke Skywalker da Guerra das Estrelas. Batman. O «selvagem», do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.
      
29    Com qual figura histórica mais se identifica?

A história nunca se repete e seria presunçoso, mas gosto de pensar em Albert Einstein ou Benjamim Franklin, não pelo que fizeram como inventores e homens da ciência, mas por aquilo que observaram e escreveram sobre o comportamento humano.
      
30    Quem são os seus heróis na vida real?

Todos os que lutam consigo próprios ou seja contra quem for em nome da sua felicidade; e mais do que isso, que lutam pela felicidade dos que amam.

Além deles, Steve Jobs, fundador da Apple, por inúmeras razões, mas sobretudo devido a um ensinamento que o pai lhe deixou quando refaziam a vedação da casa da família. Steve era pré adolescente e conta que o pai lhe pedia toda a atenção para deixar bem aparafusados os parafusos que se escondiam nas peças interiores da vedação. «Mas esses não se vêem», protestou Steve. O pai respondeu «Pois não, mas nós sabemos que estão lá.»

31    Quais são os seus nomes preferidos?
              
Os femininos.
      
32    O que detesta?
              
Polvo, lulas e invertebrados no geral.
      
33    Qual é o seu maior lamento?

O tempo e o local onde nasci, devido à forma como tenho sido «governado», ao longo da maior parte da minha vida.
      
34    Como gostaria de morrer?

Em paz, em silêncio, sem provocar sofrimento a quem me ama. Com música. E gostava que a igreja ou o local de culto da morte fosse transformado num palco de celebração da vida. Admitindo algumas lágrimas, dos que verdadeiramente me nutriram durante a vida. Mas sobretudo um palco para reafirmar algumas das ideias que alimento e professo. Os meus filhos sabem quais são. Os que amo e amei sabem. Os meus colegas de trabalho também.
      
35    Qual é o seu lema de vida?
              
a) «Se fosse fácil era para outros»

b) «A vida é o que acontece quando estamos ocupados a fazer outros planos»