As empresas cotadas ou que têm dívida a negociar no mercado de capitais estão "muito preocupadas" com a situação da bolsa portuguesa, reclamando mais investimento da Euronext, disse hoje no parlamento o líder da associação que as representa.

"Deixamos aqui uma nota de muita preocupação com a atual situação do mercado de capitais português, que é uma situação de fragilidade sem paralelo com outros países com que nos comparamos", afirmou Abel Sequeira Ferreira, diretor executivo da Associação de Empresas Emitentes de Valores Cotados em Mercado (AEM).

E realçou: "O principal indicador desta fragilidade é, por um lado, a diminuição da capitalização bolsista em função do PIB [Produto Interno Bruto], e por outro, o facto de não termos entrada de novas empresas em bolsa".


O responsável participou numa audiência na Comissão de Economia, na Assembleia da República, tendo reclamado um maior investimento da Euronext, a gestora da bolsa portuguesa, na dinamização do mercado.

"O que causa desconforto é a Euronext ter lucros tão grandes sem fazer um investimento no desenvolvimento do mercado português", resumiu.

Segundo Abel Sequeira Ferreira, "a situação do mercado é tão frágil que a única forma de inverter esta tendência é lançar um plano estratégico para o mercado de capitais português", envolvendo todos os atores nesse esforço.

"Não é possível através de iniciativas isoladas que as empresas recuperem confiança para irem para o mercado", sublinhou.

"A bolsa tem que responder às necessidades das empresas e, em nossa opinião, a Euronext não tem estado a fazê-lo", criticou, considerando que "a Euronext em Lisboa tem que agir de acordo com as necessidades da realidade portuguesa".


Sequeira Ferreira apontou para a forte queda da negociação em Lisboa e a falta de apetência das empresas pelo mercado de capitais para justificar as suas críticas à Euronext.

"É preciso fazer diferente porque o mercado não está a dar resposta às necessidades de financiamento das empresas portuguesas", assinalou.

E realçou: "A Euronext tem mantido uma atitude de alguma inércia".


Em declarações à Lusa à margem da sua audição parlamentar, o líder da AEM ilustrou com o aumento do preçário definido para a plataforma transnacional que gere as bolsas de Amesterdão, Bruxelas, Lisboa e Paris.

"Ainda agora em janeiro houve um aumento do preçário. É definido um preçário em Paris que é replicado nas outras praças. Ora, não podem ser aplicadas políticas harmonizadas porque os mercados são diferentes", vincou.

"Há cinco anos que insistimos nisto com a Euronext, que não tem mostrado abertura. A Euronext tem em Portugal resultados muito elevados com um retorno de 60% (das receitas face às despesas), o que origina lucros excessivos face à realidade do mercado português", acrescentou.

De acordo com Sequeira Ferreira "as grandes empresas, as cotadas, são as mais impactadas, mas o impacto também se sente nas empresas que não estão cotadas", que perdem o apetite pela opção de se financiarem no mercado, seja no segmento acionista ou obrigacionista.

"A Euronext tem lucros excessivos em Portugal e ainda corta nos benefícios que podia dar ao mercado", acusou, explicando que a entidade "cortou os benefícios que dava às empresas que já tinham estado cotadas para voltarem ao mercado".


Sequeira Ferreira disse que "esta forma de agir da Euronext é motivo de grande insatisfação", pedindo que a gestora da bolsa portuguesa invista parte dos seus lucros em "programas de capacitação das empresas para irem ao mercado".

O responsável rematou que "mesmo que a iniciativa não parta da bolsa, pelo menos que apoie, porque é quem tem capacidade para o fazer", já que, em 'números gordos', obtém receitas superiores a 30 milhões de euros anuais que originam lucros na ordem dos 15 milhões de euros.