Notícia atualizada às 2:00 do dia 27 de outubro


A candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, foi reeleita neste domingo presidente do Brasil numa das mais renhidas disputas eleitorais que o país já conheceu. A petista venceu com 51,6% dos votos válidos (54.499.706 de votos) , derrubando Aécio Neves, do PSDB, que alcançou 48,3% do sufrágio ( 51.041.003 votos)

A diferença entre ambos foi pouco além dos três milhões de votos, com os brancos e nulos a somarem apenas 6,34% dos boletins, num quadro de abstenção 21,1%. Isto é, não foram às urnas cerca de 30 milhões de eleitores num universo de 142 milhões de brasileiros votantes em todo o mundo.

O Brasil já pode voltar à novela da noite, metade contente, metade triste. Dilma Roussef conquistou o Palácio do Planalto por mais quatro anos, mas o país está claramente dividido com estes resultados eleitorais. Em 2010, a sua vitória, ainda embalada pelo carisma de Lula da Silva e bons ventos económicos, alcançou os 56,05% dos votos contra José Serra, que ficou pelo caminho com 44%.

O jornal «O Globo» escreve que a reeleição de Dilma Rousseff é a «e leição mais acirrada da história da redemocratização do Brasil». E dá exemplos: os ex-presidentes Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e a própria Dilma Rousseff nunca tinham vencido os seus adversários com uma margem tão pequena. De acordo com o jornal, a diferença mais pequena entre um vencedor e um derrotado presidencial apenas foi registada no sufrágio de 1989, entre Collor e Lula. Collor venceu com 42,75% dos votos contra os 37,86% do candidato do PT.

O Brasil vai agora a caminho de 16 anos de governação PT.  Para o embaixador Seixas da Costa, que esteve lá destacado durante quatro anos, a contínua sucessão do PT no poder pode gerar «uma quebra de democratização do próprio sistema». «Se entrarmos num período de algumas manifestações sociais, e se entrarmos num período de alguma radicalização com mal estar social, podemos talvez ter algum efeito de natureza negativa no sistema político-institucional brasileiro desta presença obsessiva do PT na máquina do poder», sublinhou, em declarações na TVI24, num programa de análise sobre os resultados eleitorais.
 

No seu discurso de vitória, as palavras da presidente reeleita centraram-se na promessa da abertura ao diálogo para uma reforma política, no combate à corrupção com o desejado fim da impunidade e na paz e união do país que, apesar de um resultado eleitoral muito disputado, tem na voz de Dilma a promessa de mudança para melhor. « Quero ser uma presidenta muito melhor do que fui até agora», confessou, depois de agradecer a todos e, em especial, a Lula da Silva.

Por seu turno, Aécio Neves citou o apóstolo São Paulo, ao dizer que travou «o bom combate». «Mais vivo do nunca, mais sonhador do que nunca, eu deixo essa campanha ao final com o sentimento de que cumprimentos nosso papel. Combati o bom combate, cumpri minha missão, e guardei a fé. Muito obrigado a todos os brasileiros».

Fé na vitória de Aécio Neves, era o que tinha Marina Silva, que lhe entregou o seu apoio na esperança de influenciar o sentido do voto dos mais de 21 milhões de eleitores que votaram nela na primeira vota das eleições, a 5 de outubro. Não foi o que aconteceu, perdeu duas vezes.

Ainda que por curta margem, a maioria dos brasileiros não quis as mudanças propostas pelos adversários de Dilma Rousseff. Neste domingo de presidenciais, as ruas encheram-se de gente como há cerca de seis meses, mas em vez de manifestações políticas contra o aumento do preço dos transportes públicos ou do dinheiro mal gasto em estádios de futebol para receber a Copa do Mundo, o Brasil saiu de casa para celebrar a vitória de Dilma. Para o analista José Roberto de Toledo, serve a ironia para explicar o que se passou: « Após a onda de protestos, eleitor troca seis por meia dúzia».





Este novo Brasil de Dilma será diferente daquele que ficou para trás? Os jornais brasileiros escrevem em uníssono que a presidente reeleita terá que unir o país, mas também enfrentar o que agora se sabe: o escândalo do petrolão, que envolve Lula da Silva e a própria.

É o que escreve a revista «Veja» na sua edição online, nesta noite eleitoral. « A vitória apertada prenuncia um segundo mandato muito mais difícil para a petista. Na última semana da corrida eleitoral, o escândalo do petrolão atingiu em cheio a presidente e seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva».

Nesta reta final da campanha eleitoral, na última semana, a revista «Veja» avançou que o doleiro Alberto Youssef afirmou à Polícia Federal que Dilma e Lula sabiam dos esquema de desvios de dinheiro na Petrobras (petrolífera estatal reconhecida mundialmente) que estão sob investigação.  Agora que terminou a campanha, o Brasil vai ter de acordar para os desenvolvimentos desta investigação, que pode envolver ainda mais Dilma Rousseff e o seu governo. 

O desafio da petista passará, a nível económico, por revigorar os números do crescimento - e fazê-lo com um fortalecimento da oposição no Parlamento, onde perdeu a margem que tinha. Longe da época áurea de Lula da Silva, os brasileiros não têm visto o país crescer como outrora e enfrentam uma inflação elevada. E é por isso que já se fala que o amanhã do Planalto será uma «tempestade perfeita», conforme escreve a «Veja», que titula em manchete no seu site  «Reeleita, Dilma tem escândalo do petrolão pela frente».  

No seu discurso de vitória, Dilma Rousseff falou em reforma económica, mas «que reforma económica será essa?», questiona o jornalista da TVI Victor Moura-Pinto. «Provavelmente o dólar vai continuar a aumentar, provavelmente a inflação não será controlada dentro de uma margem equilibrada. Tudo isto tem custos para a economia. O tecido empresarial está muito avesso às políticas da presidente Dilma e é uma grande incógnita», sublinhou Moura-Pinto, autor de uma grande reportagem sobre o estado do Brasil.

Dar voz aos apelos de mudança será, por isso, um dos grandes desafios da economista e ex-guerrilheira que, tendo sobrevivido a 100 dias de campanha, não é mulher de baixar os braços.