No início parecia que iria ser o caos. Mas o decorrer do primeiro dia da Convenção do Partido Democrata, em Filadélfia, mostrou um campo democrata com força e capacidade mobilizadora para se juntar em torno da candidatura de Hillary Clinton, unidos pelo objetivo comum de derrotar Donald Trump.

Primeiro a revolta.

Nas horas que antecederam o arranque dos trabalhos em Filadélfia, rebentou a bronca: Debbie Wasserman Schultz, líder do Comité Nacional do Partido Democrata (DNC), anunciou que iria demitir-se após a convenção, na sequência da revelação, pelo Wikileaks, de 20 mil emails comprometedores para a suposta neutralidade que era exigida ao DNC, no duelo pela nomeação presidencial, entre Hillary e Sanders.

O conteúdo de alguns dos emails era claro ao apontar para favorecimento dos interesses de Hillary, e para uma tentantiva do DNC de prejudicar Sanders.

Do ponto de vista da mera análise política, não havia grande novidade: ao longo do processo de primárias, foi relativamente claro que o DNC e as elites democratas preferiam Hillary, a candidata do «establishment», a Bernie, o candidato «outsider» e profundamente crítico do «sistema». O próprio Sanders comentou, numa reação à polémica, que «não foi surpresa para quem está no nosso campo ver que o DNC estava a fazer tudo para que Hillary vencesse».

No campo de Clinton, os alarmes começaram a soar. Robby Mook, diretor da campanha de Hillary, foi claro na acusação, em entrevista à CNN: «Há uma ligação direta e de interesses comuns entre a campanha Trump e os russos».

Embora a candidata não tenha sido tão explícita nessa tese (em entrevista conjunta à CBS com o seu candidato a vice, Tim Kaine, limitou-se a dizer que nada sabia sobre o que o DNC estava a fazer e que nunca pactuaria com atitude menos éticas), a posição da candidatura Hillary foi mesmo a de que a Rússia de Putin terá estado por trás das revelações feitas pelo wikileaks (no «Defense One», associado ao «Huffington Post», falou-se numa fonte ligada a serviços de inteligência russos).

Temeu-se o pior nas hostes democratas. Revoltados, os apoiantes de Sanders assobiavam em plena convenção quando ouviam o nome de Hillary e defendiam que Tim Kaine, ligado a interesses de Wall Street, deixasse de ser a escolha para número dois, advogando a entrada do próprio Bernie para o ticket.

Mas a tempestade política amainou em Filadélfia com as primeiras intervenções da convenção.

Elizabeth Warren, uma das campeãs da ala progressista, foi clara, na «keynote adress», a defender que Hillary Clinton tem toda a legitimidade na nomeação e merece a unidade do partido. Bernie Sanders, em intervenção que por certo não esquecerá, chegou a ser assobiado por alguns dos seus próprios apoiantes, quando apelou de forma clara ao voto em Hillary, mas defendeu o seu caso com coragem e firmeza: «Donald Trump é o pior candidato que vi na minha vida. Temos que o travar. Tem que ser derrotado. Hillary Clinton é a melhor pessoa para o fazer e merece o nosso voto. Vamos unir-nos em torno de Hillary!»

A política, de facto, dá muitas voltas.

Michelle, fantástica

E houve também Michelle Obama. A Primeira Dama assinou um dos melhores momentos dos últimos anos da política americana, com um discurso notável, misto de emoção e razão, muito bem pensado, muito bem construído e muito bem concretizado.

Mobilizadora, mostrou que os Obama estão com Hillary de coração. Michelle terá retribuído, com este elogio a Hillary, o que Bill fez por Barack há quatro anos (um dos melhores discursos alguma vez feitos em convenções) e falou de Hillary como alguém que admira muito porque «nunca desiste e nunca cede à pressão».

Falando sempre de Hillary como um exemplo e uma referência, falou nas filhas e em como elas «se inspiram e acreditam» vendo o percurso de uma mulher como a nomeada democrata de 2016.

Deixem-me dizer-vos que Barack e eu seguimos, em cada ação, em cada decisão, a mesma abordagem como pais que seguimos nas nossas vidas como presidente e primeira dama, porque sabemos que as nossas ações interessam, que as nossas palavras contam, não apenas para as nossas filhas, mas para as crianças em todo o país". Mais uma indireta ao comportamento de Donald, mesmo sem ter que referir o nome do adversário dos democratas nesta eleição.

Numa atitude pacificadora e de união, Michelle elogiou a atitude de Hillary após ter perdido a renhida disputa de 2008 para Barack, deixando esse exemplo como inspiração para o que deve acontecer nos democratas desta vez: «Hillary sabe que há interesses comuns bem superiores à vontade e à ambição política pessoal».  

Depois de horas de tumulto e revolta, nada melhor para uma junção de vontades e corações no campo democrata, entre os seguidores de Hillary e os apoiantes de Sanders, do que o discurso sábio, ponderado e certeiro de Michelle Robinson Obama.

Houve quem suspirasse por uma futura carreira política da ainda Primeira Dama, depois desta demonstração de classe no palco de Filadélfia. Mas Michelle, por várias vezes, já explicou que não quer mesmo que esse seja o seu destino.

Oito anos na Casa Branca já lhe chegaram. E os EUA, como ela muito bem diz, continuam a ser um país de futuro. Aconteça o que acontecer.

* jornalista, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição»