Pela terceira semana consecutiva a nossa atenção encontra-se centrada no futebol nacional e no final do campeonato da primeira liga. A pergunta que podemos fazer é se nada mais importante ocorreu. A resposta é que sim.

Esta foi uma semana de atenção superconcentrada no futebol, com mais de um quarto dos destaques dados a assuntos da esfera futebolística, a par de notícias económicas e financeiras sobre o défice, o retorno às 35 horas após os anos de Troika, o estado da economia portuguesa e as exportações e mesmo sobre a segurança social.

No entanto, mesmo quando outras questões surgem, o futebol esmaga-as em notoriedade, pois somos um país onde 75% da população segue apaixonadamente o desempenho do seu clube - dividindo-se, segundo os estudos, entre cerca de três milhões de benfiquistas, milhão e meio de sportinguistas e número idêntico de portistas.

Tivemos assim uma semana de superavit de atenção ao futebol e de défice de atenção a outras matérias. No fim de contas, Maio (e também Junho quando há mundiais ou europeus) são o nosso outro Carnaval, ou seja, o momento onde nos afastamos das preocupações do quotidiano, da política, das catástrofes e das questões sociais e económicas para mergulhar nas paixões do futebol.

Daí que as semanas de final de campeonato, ou de competições internacionais de futebol, sejam também, por vezes, utilizadas por parte dos governos para dar más notícias às populações ou para gerir matérias controversas com algum afastamento da opinião pública.

Por isso, nesta semana não foram apenas as eleições espanholas, como referiu o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que afastaram a Comissão Europeia de aplicar penalizações a Portugal pelo não cumprimento do défice e ajudaram assim o governo. Também, internamente, o futebol, a vitória do Benfica e as reações do Sporting deram uma ajuda ao governo ao afastar a discussão interna para segundo plano de atenção.

E quanto a questões polémicas, aquelas que tocam nos nossos valores, crenças e quotidiano? Esta foi a semana em que a discussão sobre escola privada e pública e  contratos de associação continuaram no nosso horizonte de interesse e em que a procriação medicamente assistida entrou para a nossa zona de atenção.

E, curiosamente, foram essas questões polémicas mas da esfera do quotidiano e das escolhas pessoais, e não as questões da governação económica e financeira, que propiciaram o clima de ligeira e potencial confrontação entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, demonstrando que efetivamente estamos a viver um novo tempo político - a pergunta óbvia é, quanto tempo durará o tempo novo?

 

 

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, Público, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias com mais destaque nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do Público, Expresso, Sol, TVI24 e SIC Notícias.