Com as mudanças de temperatura e o início do ano letivo, aumentam os casos de infeções respiratórias em crianças. Uma situação que obriga, em grande parte dos casos, a um regresso precoce a casa.
 
Bronquites agudas, gripes, constipações e amigdalites são muitas vezes tratadas com antibióticos, mesmo sendo inexistente o benefício terapêutico destes medicamentos para as infeções virais.

Em Portugal, mais de metade das crianças, no primeiro ano de vida, já tomaram antibiótico, opção que o pediatra José Guimarães, entrevistado nesta sexta-feira, na TVI, considerou "assustadora".

"Amigdalites, rinofaringites ou a vulgar constipação, bronquiolites, que nas crianças mais pequeninas é uma infeção relativamente comum e um pouco mais preocupante mas que é bastante frequente nesta altura e é causada precisamente por vírus... Os tratamentos antibióticos não têm qualquer eficácia nem justificação. São raras as complicações que fazem com que haja necessidade de usar antibióticos", alertou o clínico.

"Estas infeções são frequentes, facilmente contagiáveis pelo tipo de relação que as crianças estabelecem umas com as outras. Muitas vezes, no final de uma constipação aparece outra e isto dá cabo da vida dos pais porque acham que já estão há muito tempo com infeções e há uma maior pressão para uma prescrição de qualquer coisa que trave isto. Daí os antibióticos surgirem de forma desadequada", explicou José Guimarães.
 
Para o pediatra, "a  principal falha é a fronteira". "Saber até quando é que a situação é simples, banal e só causada por vírus e quando é que já revela uma sobreinfecção bacteriana. Essa fronteira não é muito linear, exige bom senso, exige experiência e que as crianças sejam seguidas de forma regular pelo seu médico", considerou.

De acordo com estudos, 55% dos bebés com menos de um ano já tomaram antibióticos, cenário que José Guimarães entende ser "bastante assustador". 

"Uma das coisas mais importantes é termos a noção, e é bom que os pais a tenham, de que uma constipação normal num bebé pequeno não se trata de um momento para o outro e que não há nenhum medicamento que seja miraculoso e que faça com que aqueles sintomas desapareçam. É comum que durante 8/10 dias a criança mantenha esses sintomas e, desde que não haja febre e esteja bem, é melhor não pressionar, que tudo vai correr bem. Se por acaso isto não correr assim, aí sim há necessidade de recorrer ao médico e eventualmente a um serviço de urgência", observou o pediatra, que reforçou a importância de "ter cuidado com o contacto físico" e de "lavar as mãos" com frequência, quando há crianças ou adultos infetados.