Uma onda de solidariedade está a varrer Itália nos últimos dias. A história do menino egípcio Ahmed, contada pelo jornal Corriere della Sera, já levou até o primeiro-ministro Matteo Renzi a disponibilizar apoio dos serviços de saúde e um hospital da região de Florença a prontificar-se a tratar e operar o seu irmão Farid, de sete anos.

De acordo com o jornal, o pequeno Farid viajará para Itália com a família para ser tratado. Sofre de um problema no sangue, designado plaquetopenia, ou seja uma redução das plaquetas. O diagnóstico terá sido feito no Egito, mas a miséria extrema da família não permitia que aí pudesse ser tratado.

Acabou por ser o irmão mais velho, Ahmed, de 13 anos, que avançou. A sua família, residente num lugar chamado Rashid Kafr El Sheikh, a 130 quilómetros do Cairo, vendeu tudo o que tinha e não tinha para conseguir embarcá-lo num bote, rumo à Europa.

No meio de uma centena de refugiados, mais uma vaga entre imensas marés, Ahmed chegou a bom porto. Em todos os sentidos...

Viagem como gente grande

Para pagar a viagem, ou seja, para pagar aos engajadores que ganham dinheiro a embarcar pessoas de África para a Europa, a família de Ahmed gastou tudo o que tinha. Pouco dinheiro ganho a cultivar tâmaras.

Não chegou. Um tio do rapaz teve mesmo de vender o único terreno que tinha. O resto foi com Ahmed. Viajou da sua terra escondido num camião de transporte de animais, chegou ao porto egípcio de Alexandria e lá se meteu num bote carregado de refugiados.

Foram dez dias no mar, porque o trajeto partindo do Egito é mais longo do que da Líbia", contou à BBC Brasil, um funcionário da Organização Internacional para a Migração (OIM), também egípcio, na ilha de Lampedusa.

Foi aí que a história do menino ficou conhecida. Nas mãos, sem nunca o ter largado, tinha um saco de plástico com o diagnóstico médico do irmão, Farid.

Falei com a mãe dele por telefone. A família é muito pobre e o hospital mais próximo de onde moram fica a quatro horas de distância", contou o ténico da (OIM).

Na origem de tudo, comprovou-se estar a pobreza extrema da família e a vontade férrea de Ahmed em salvar o irmão.

O custo de cirurgias e tratamentos médicos no Egito é muito alto. Até os remédios custam muito caro lá", explicou o homem da OIM, segundo o qual o custo de uma primeira cirurgia do irmão seria de 30 mil liras egípcias (cerca de 4 mil euros) e os exames não saíriaam por menos de 500 euros. Isto quando o trabalho de todo um ano da família não renderia mais de 3 mil euros.

"Ver o meu irmão jogar à bola"

Ahmed foi acolhido na ilha de Lampedusa. Deverá agora encontrar-se com os pais e o irmão Farid em Florença, onde o mais novo será tratado.

Foi na ilha que o jornal Corriere della Sera primeiro o encontrou. Com o saco de plástico na mão.

Ao jornal italiano, o menino contou o que o fez atravessar o mar.

Era terrível ver o meu irmão sem poder ir ao hospital, porque meu pai não tinha dinheiro para pagar o tratamento e a operação", relatou Ahmed, deixando claro aquilo que mais deseja.

O meu sonho é ver o meu irmão jogar sem se sentir mal. Jogar futebol comigo e corrermos juntos sem ter medo de que vai desmaiar".