Nem de propósito, Zephany é um nome de origem hebraica que significa "escondida por Deus". E assim parece ter acontecido durante dezassete anos, numa cidade da província sul-africana do Cabo.

A jovem Zephany Nurse, nome que os pais biológicos lhe deram à nascença, vivia na mesma cidade que eles e estes durante todos esses longos 17 anos a procuraram. Por coincidência, ou chame-se-lhe outra coisa qualquer, a rapariga tornou-se muito amiga de uma colega de escola mais nova. Eram muito parecidas. Toda a gente o dizia. De facto, eram irmãs, filhas do mesmo pai e mãe.

Pelas parecenças entre a amiga Zephany - que então usava outro nome, dado pelos pais adoptivos e que a justiça sul-africana não revelou - e a filha quatro anos mais nova, o casal Celeste e Morne Nurse começaram a desconfiar. Podia ser a sua filha, roubada dezassete anos antes da maternidade. Os testes de ADN vieram a confirmá-lo.

Na passada semana, o caso teve o seu desfecho num tribunal da cidade do Cabo. A mãe e raptora de Zephany foi condenada a dez anos de prisão. Ao que conta a imprensa sul-africana, o seu marido poderia mesmo não ter conhecimento que Zephany afinal não era sua filha. E a jovem, hoje com 19 anos, vive agora numa incerteza sobre a quem deve chamar seus pais.

Um rapto por desespero

Durante o julgamento, foi revelado que a raptora e mãe adoptiva de Zephany durante 17 anos sofrera vários abortos expontâneos. Terá ficado deseperada por não conseguir engravidar e isso tê-la-á levado a roubar uma criança na maternidade.

Dessa altura, ficou uma fotografia da mãe Celeste Nurse com a sua filha Zephany, ainda com horas de vida. Só a reviu, muitos anos depois.

Em sua defesa, a mulher agora condenada negou ter raptado a criança. Assumiu não ser sua filha biológica, mas jurou que a bebé lhe fora entregue com dias de vida por uma mulher chamada Sylvia, numa estação de comboios, que a estaria a ajudar com tratamentos de fertilidade.

Ninguém acredita em mim neste momento e eu mesma sou vítima. Fui enganada e envolvida em algo que não sabia", disse a mulher em entrevista à cadeia informativa britânica BBC, antes da condenação.

Em tribunal, a mulher jurou que tinha assinado papéis de adoção, mas que os teria perdido. Ficou, contudo, dado como provado que, há 19 anos, ela tinha ido várias vezes à maternidade, com roupa semelhante à dos funcionários.

Estranhamente, o marido só ter descoberto que Zephany não era sua filha, quando a identidade da rapariga foi revelada. E apesar de tudo, não deixa de apoiar a sua mulher, agora condenada.

Sempre iremos agradecê-la por ter sido uma ótima mãe", afirmou à imprensa, o homem que continua a manter um bom relacionamento com a sua filha adotiva Zephany.

Reconquistar uma filha

Zephany vive agora entregue aos serviços da segurança social sul-africana. Confusa, tem sido visitada pelos seus pais biológicos, Celeste e Morne Nurse, que se separaram em fevereiro do ano passado. Segundo dizem, porque a procura por uma filha desaparecida foi minando a sua relação ao longo dos anos.

A indefinição marca, contudo, os dias de Zephany.

A sua estrutura de significados, sentido de identidade, como ela se coloca no mundo, tudo foi alterado. Como psicólogo, acho que o importante é saber como lidar com esta nova realidade", referiu sobre o caso o especialista Oliver Fachs, citado pela BBC.

Pela sua parte, Zephany tem sido mantida afastada da vida pública. Mas em Março, através de um comunicado, criticou a forma como a imprensa estava a tratar a mulher que a tinha criado.

Vocês nunca pensam que essa é a minha mãe? Se for verdade ou não, não é para vocês brincarem com isso", ficou expresso no comunicado.

Feita a justiça, o caso continua assim num amargo impasse. Zephany perdeu a pessoa que via como sua mãe e o homem a quem sempre chamou pai, que também perdeu a mulher, entretanto presa. Por último, o casal Nurse, ao cabo de tantos anos sem a sua filha, ainda não conseguiu verdadeiramente reavâ-la.