A Associação dos Indignados e Enganados do Papel Comercial (AIEPC) está convencida que o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho vá tomar uma decisão a seu favor antes das eleições legislativas a 4 de outubro, "no sentido que se faça justiça".

Alberto Neves, vice-presidente da AIEPC, que participava em mais uma manifestação a reivindicar o reembolso do dinheiro investido em papel comercial do Grupo Espírito Santo, desta vez também com a inclusão dos emigrantes lesados, disse que vai haver um "novo ciclo de legislatura", mas acredita que Pedro Passos Coelho "vai tomar uma decisão antes das eleições no sentido que se faça justiça porque o órgão de soberania executiva tem por missão acautelar a defesa dos cidadãos mais frágeis e não os banqueiros".

O responsável fez assim um apelo ao primeiro-ministro para que "se tome uma decisão que respeite a equidade e a responsabilidade social", porque "o capital humano é constituído por trabalhadores e clientes e nenhum banco sobrevive sem clientes de retalho e trabalhadores pacificados".

Em declarações à agência Lusa, Alberto Neves advertiu ainda que os possíveis compradores do Novo Banco (Anbang, Fosun e Apollo) "têm de ter em atenção este segmento de clientes", tanto os lesados no país como os emigrantes, até porque depende deles "a robustez do Novo Banco".

Assim, a AIEPC, segundo o seu vice-presidente, já enviou "missivas aos três compradores do Novo Banco", pelo que "já há conhecimento daquilo que a Associação pretende".

Sobre a participação dos emigrantes na manifestação de hoje, Alberto Neves acrescentou que estão "solidários" com os lesados: "somos todos portugueses e fomos todos aldrabados e enganados pela instituição que devia tomar partido na defesa dos cidadãos e não dos banqueiros".

"O dr. Carlos Costa aufere por mês muito acima que o seu homólogo da reserva federal alemã e dos EUA e os portugueses devem perceber que todos os acionistas do Fundo de Resolução, os banqueiros, segundo a OCDE, em média, auferem rendimentos mais elevados que os seus homólogos dos países mais ricos. Isto é um sinal de que o sistema financeiro está em crise profunda de valores e de moralização", frisou.


Já Nuno Silva Vieira, advogado da associação disse à Lusa que existem boas expetativas para que haja uma decisão favorável aos lesados.

"Ao longo dos últimos anos houve a criação de entidades boas e más a nível internacional, veja-se o caso do Banco do Brasil", observou o advogado, adiantando que estes processos, "terminam com a indemnização das pessoas e grandes responsabilidades e peso económico para os Estados", pelo que lamenta ter que agir no tribunal e "ter que fazer este tipo de manifestação quando as coisas poderiam ser resolvidas de forma ordeira, numa reunião simples, à mesa, com um acordo que beneficiasse todos".


Na sexta-feira, o Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa admitiu uma providência cautelar interposta pela AIEPC, que exige que o Banco de Portugal informe o comprador do Novo Banco do montante de papel comercial devido aos cerca de 2.500 subscritores, que ronda os 530 milhões de euros, ou seja, que inclua esse montante como “uma imparidade” nas contas da instituição financeira.

As partes envolvidas, principalmente o Banco de Portugal, têm agora 10 dias para se oporem à providência cautelar.

São cerca de 2.500 os clientes do Novo Banco que adquiriram papel comercial do Grupo Espírito Santo (GES) aos balcões do Banco Espírito Santo (BES) no montante total de 527 milhões de euros que ainda não foram reembolsados - não sendo ainda conhecida solução para este problema.

A AIEPC tem organizado ao longo dos últimos meses várias manifestações de protesto em várias cidades do país.