O empresário Jaime Dias, ligado aos resíduos industriais, e um dos seus comerciais negaram esta terça-feira, em tribunal, qualquer envolvimento numa alegada rede que desviou camiões carregados de mercadoria diversa, que era depois vendida a recetadores

O julgamento deste caso começou na Comarca do Porto, no Tribunal de S. João, e envolve 43 arguidos acusados por 390 crimes, de associação criminosa, a furto qualificado e recetação.

A manhã foi toda ela preenchida com a identificação dos 31 arguidos presentes, tendo a sessão sido interrompida minutos depois do meio-dia e retomada à tarde.

Segundo o despacho acusatório do processo, o esquema foi montado por um industrial têxtil de Vila Nova de Gaia, que recrutou outros empresários para a cúpula do grupo. Em 2011, a PSP avaliou os furtos em mais de dois milhões de euros.

Jaime Dias, administrador da empresa com o seu nome, na Trofa, está acusado de recetação e de falsificação de documento. «A empresa nunca se viu numa situação destas», afirmou, em resposta a uma questão da procuradora.


«Para nós, é tudo novo», reforçou, negando os crimes que lhe são imputados, como reporta a Lusa.


O empresário foi um dos três arguidos que se mostraram disponíveis para prestar declarações imediatamente. Confirmou negócios com outro dos arguidos, Diogo Monteiro, de 39 anos, industrial têxtil de Vila Nova de Gaia, referindo que não suspeitou que o material negociado fosse de proveniência ilícita.

No dia 03 de agosto de 2011, a polícia deslocou-se à sua empresa depois de um negócio de arame.

O comercial Gabriel Ferreira, que trabalha para a empresa Jaime Dias, foi quem falou primeiro e disse estar a ser acusado de crimes que não cometeu, nomeadamente o de ter contribuído para escoar determinados produtos em troca de uma comissão.

«É mentira», afirmou Gabriel Ferreira. Confirmou, isso sim, que foi contactado por Diogo Monteiro e que este lhe propôs negócio.


«Abordou-me para ver se eu comprava matéria de aproveitamento, como perfis em ferro e bobinas metálicas, e nós (a Jaime Dias SA) compramos tudo isso», declarou, após ser questionado pelo juiz Mário Silva.

Em nome da sua empresa, o comercial e agora arguido fez outros negócios similares com Diogo Monteiro.

Habitualmente, segundo disse, vê o material, fotografa-o e depois informa o seu patrão, Jaime Dias, «para ver se lhe interessava».

A empresa fez «tudo direitinho» e pagava cerca de 300 euros por cada tonelada do referido material de aproveitamento, o qual depois seguiu para a Siderurgia para ser reciclado.

O arguido negou que os valores pagos fossem muito abaixo aos do mercado e afirmou que não desconfiou da origem daquele produto.

Gabriel Ferreira foi alvo de escutas policiais e a polícia fez uma busca a sua casa.

Certa vez, disse que começou a aperceber-se de que o material «devia ser roubado». Terá acontecido depois do último negócio, referiu, sem contudo explicar por que motivo.

O julgamento prossegue dia 09, às 09:30, no Tribunal de S. João Novo.