Em semana de fim de férias estivais, em que os portugueses migraram para as praias, as praias da esperança (e morte) dos refugiados mantiveram-se quase na totalidade longe dos destaques mediáticos nacionais. Há um ano o menino sírio fotografado morto numa praia turca tornou-se bandeira do drama dos refugiados, mas neste final de agosto ninguém viu mais do que mergulhos e banhos de sol nas praias.

O silêncio mediático é tal que poderia pensar-se que o êxodo de zonas em conflito para a Europa teria parado. Mas esta semana vários factos desmentem essa ideia errada.

A Organização Internacional para as Migrações, organismo das Nações Unidas, divulgou números esmagadores: desde janeiro, 111500 migrantes e refugiados foram resgatados só no Mediterrâneo central, 272 mil chegaram à Europa através do Mediterrâneo e  3165 perderam a vida na tentativa. Só na terça-feira, cerca de 6500 refugiados, na maioria da Somália e Eritreia, foram resgatados ao largo da Líbia pela guarda costeira italiana. Em França, as autoridades vão mesmo desmantelar a “Selva”, o bairro de lata junto a Calais onde se amontoam os migrantes que esperam atravessar o Canal da Mancha para o Reino Unido.

Em Portugal só se deu destaque ao 700 refugiados recebidos e distribuídos por 66 municípios, a que se juntarão em breve mais 92.

Na semana homóloga do ano passado (26 de agosto a 1 de setembro), mesmo antes da morte de Aylan Kurdi, o tema dos refugiados representou 16% dos destaques noticiosos, tendo sido o tema mais destacado nessa semana, de acordo com os dados do Barómetro de Notícias.

Passado um ano, o drama dos migrantes não só está fora do top 10, como quase não teve destaques. Quantos mais Aylan Kurdi terão de morrer para se dar a atenção devida à catástrofe humanitária em curso?

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.