Paredes de Coura não vive apenas de música por estes dias, há quem venha em busca da oferta cultural que distingue este festival dos demais. Prova disso é a constante aposta da organização em iniciativas literárias, como a colocação de livros em diversos pontos do recinto ou o evento “As Vozes da Escrita”.

Foi precisamente antes do início de mais uma sessão do “As Vozes da Escrita” que falámos com José Eduardo Agualusa, escritor, e Kalaf Epalanga, escritor e membro dos Buraka Som Sistema.

Os dois angolanos estiveram pela primeira vez na praia fluvial do Taboão e destacaram a envolvência única do festival com mais edições do país. Questionado sobre as iniciativas literárias do Paredes, Kalaf afirma que “não há uma forma de cruzar as duas formas de expressar, que estão intimamente ligadas, a música e a literatura”.

A música e a literatura são irmãs”, defende Kalaf

O membro dos Buraka diz que “estar num ambiente à beira rio, com as pessoas relaxadas a ler textos, que lhes tocam, é óptimo”. A escolha dos textos passou pelas obras em que ambos retratam as viagens que fizeram e as relações que ambos têm com a música.

É um festival em que não se veem telemóveis no ar, as pessoas querem estar aqui a observar tudo. Aqui estão os verdadeiros amantes da música”, afirma, com satisfação, Kalaf

O escritor e jornalista José Agualusa, nascido em Huambo, fala do clima único que se vive no festival, “um festival que não é literário, mas tem espaço para a literatura que resulta muito bem”.

O autor angolano defende que há “espaço para música” e nota semelhanças como o festival “Back to Black”, um evento em que o escritor participou no Brasil. Agualusa descreve o Vodafone Paredes de Coura como um festival de música onde há espaço para a discussão para além da música.

É a primeira vez que vou falar para um público tão despido”, confessa José Eduardo Agualusa

Já em palco, os escritores contaram que são amigos há vários anos. Kalaf conseguiu precisar o ano: 2003. Agualusa confessou que, de início, pensava que o membro dos Buraka era um cantor de merengue

“Podíamos ter-nos chamado Reboleira Som Sistema, mas não era um catch name”, admitiu, em palco, Kalaf Epalanga

Frente a frente com o público, Kalaf contou um curioso episódio sobre um dos primeiros concertos da banda. Os Buraka Som Sistema tinham concerto marcado no Algarve e, quando chegaram, estava montada uma operação de segurança entre o público e o palco. O objetivo era proteger os espetadores dos “perigosos membros da banda”. “Alguém anunciou na rádio que as pessoas deviam ter cuidado porque vinham uns tipos da Buraca atuar”, revelou, num tom irónico, o escritor e compositor.

“Tinham anunciado, quase literalmente, que deviam fechar as filhas em casa”, revelou Kalaf

A iniciativa literária passou por contos de Agualusa e obras de Kalaf. O membro dos Buraka escolheu “O angolano que comprou Lisboa por metade do preço” e abordou a vaidade do povo angolano.

O que se lê na praia fluvial do Taboão?

O gosto pela leitura de festivaleiros e autores é partilhado por algum do staff, que nos últimos dias tem estado a trabalhar nos bastidores. A TVI24 “apanhou desprevenidos” dois dos voluntários a devorar obras literárias.

André Rodrigues é o responsável pela entrada para o palco onde vão passar, por exemplo, os Arcade Fire. Nos últimos dias tem estado, maioritariamente, no turno da noite que “não proporciona as melhores condições para a leitura”, mas quando está no turno do dia aproveita “as agradáveis condições” para a leitura.

A ler o tempo passa de uma forma mais interessante”, afirma André Rodrigues

A escolha para o festival foi “A Utilidade do Inútil”, um livro de Nuccio Ordine. André descreve-o como “a apologia do conhecimento pelo conhecimento e o amor pelo amor sem pensar no lucro”.

À entrada do festival está Inês Araújo que se responsabiliza pela entrada e saída dos festivaleiros do recinto. A voluntária destaca o ambiente, que proporciona a leitura e a oferta de livros por parte da organização. Nas mãos carrega um livro com os tons de amarelo próprios de uma obra com alguma idade, “Jubiába” do autor brasileiro Jorge Amado.

São os pequenos pormenores, da leitura, da música até às conversas paralelas, que fazem do Vodafone Paredes de Coura o habitat natural da cultura.