O estudo crítico, a análise e a desconstrução da narrativa do candidato Trump foi, para muitos media norte-americanos, o ponto alto da cobertura da convenção do Partido Republicano (também conhecido por GOP). Em Portugal, o foco escolhido pelos media foi mais nas tricas políticas (o não apoio explícito de Ted Cruz, por exemplo), em quem esteve ou não presente (todo o clã Bush, os anteriores candidatos presidenciais Mitt Romney e John McCain) e, obviamente, o discurso plagiado de Melania Trump.

Mas não será a análise do discurso daquele que poderá ser o próximo presidente dos EUA o mais relevante? “The New York Times”, “The Huffington Post”, “Vox” ou NPR, para dar apenas alguns exemplos, estudaram cada afirmação e foram verificar a sua veracidade, cumprindo o papel de informar o seu público com rigor.

Ainda Trump não tinha recuperado o fôlego e já as suas afirmações estavam desconstruídas, as suas “verdades” desmentidas e sua pseudo-realidade destruída. Quem se limitar a reproduzir o discurso de Trump está apenas a fazer propaganda política e a transmitir informações falsas e sem contexto. Algo que pode ser aceitável aos utilizadores de uma rede social, mas não nos media.

Trump apelou ao medo dos americanos. Medo da crise económica, do caos social, da violência, dos imigrantes (Melania não incluída). Para isso afirmou, em jeito de juramento, que iria “apresentar os factos de forma simples e honesta”. O que se seguiu forma uma série de falsidades, rapidamente desmontadas pela comunicação social. A “Vox”, por exemplo, contabilizou “dezenas de alegações factuais no discurso, e menos de metade são verdade ou quase verdade.”

Nos EUA, o “fact checking” é uma prática obrigatória. Em Portugal, é raro vermos um discurso cheio de supostos factos ser contextualizado e verificado. Como se os políticos tivessem a prática ou obrigação de dizer apenas a verdade, com rigor e isenção. E os media não tivessem a obrigação de verificar.

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.