O coronel Otelo Saraiva de Carvalho, operacional do 25 de Abril, admite já ter sido desafiado a concorrer de novo a Presidente da República, mas que recusou por não querer entrar na «porca» da política.

Numa entrevista à Lusa, a propósito dos 40 anos do 25 de Abril, Otelo confessou que, «como o regime está», não alinhou na corrida a Belém, repetindo a candidatura de 1976.

«Não me interessa entrar naquilo que o Spínola definiu como porca: a política», afirmou.

Mas Otelo, de 77 anos, não fecha totalmente as portas. «Se houver, espantosamente, uma qualquer ação de massas, que não seja só a manifestação com cartazes, e houver uma coisa de maior volume, com maior possibilidade de intervenção, se existir uma mudança de regime que valha a pena, se houver necessidade e o povo confiar ainda na minha capacidade de liderança, estarei disponível», afirmou.

O coronel na reforma gostava de «participar numa qualquer mudança efetiva do país» e até já propôs a reconstituição do MFA.

«Já não há a perspetiva de travar uma guerra [como a colonial] que levava 40% do orçamento do Estado, e que todos os anos fazia mortos e feridos, mas há outras guerras para desencadear», adiantou.

Otelo diz que, nos últimos 40 anos, e principalmente nos que se seguiram à revolução, foi aliciado por partidos políticos e até «usado».

«O PS procurou aliciar-me várias vezes. Recebi convites de altos dirigentes para ser cabeça de lista, por exemplo, às eleições parlamentares, mas nunca aceitei, nunca quis hipotecar-me a nenhum partido», recordou.

Para Otelo, «os partidos sempre constituíram grupos de poder que lutam pelo poder, não em benefício de todo o povo, salvo medidas esporádicas, mas em benefício do próprio partido».

Otelo reconhece que excedeu «largamente» as suas funções quando, após o 25 de Abril de 1974, tomou decisões como a ocupação de terras ou o despejo dos «senhores doutores» das casas de pescadores.

«Tive de tomar decisões - enquanto comandante da região militar de Lisboa, do Comando Operacional do Continente (COPCON) e conselheiro da revolução - ao minuto. Muitas delas foram tomadas sobre os joelhos», afirmou.

Nessa corrente, confessa o agora coronel, ter-se-á excedido: «Eu excedi largamente as minhas funções. Fiz coisas...»

«Coisas» que fez porque «as pessoas não queriam assumir as suas responsabilidades». Por isso, viu-se «obrigado» a decidir, às vezes «sem ter dez minutos para pensar».

«Parecia o Passos Coelho: vamos vender os quadros do Miró, afinal não se podem vender...», ironizou.