Por: tvi24 / CP | 4- 2- 2012 9: 21
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O professor de Ciência Política Adelino Maltez considera que o movimento Geração à Rasca «encheu a Avenida da Liberdade,
desaguou no Rossio», mas perdeu força e «acabou na Betesga».
A manifestação que reuniu mais de 200 mil pessoas em
Lisboa a 12 de Março foi, na opinião do comentador político, o ponto alto do primeiro ano de existência do movimento social
e constituiu mesmo um dos factos políticos «mais importantes dos últimos cinco anos».
Contudo, posteriormente «perdeu-se
muito tempo a meter em canalizações aquilo que era um fluir espontâneo de um determinado rio num determinado momento da história»,
critica.
Na sua opinião, houve aproveitamento político e, «quando se pretende ser controleiro de mais, as massas
ficam em casa à espera de ver».
Foi «uma maré maior do que o marinheiro, muito à portuguesa, muito espontânea», que
começou logo a ser alvo de aproveitamentos, «da extrema-direita à esquerda revolucionária», o que foi um erro, porque «estas
coisas não podem ser correias de transmissão».
Também os «chamados vitoriosos» das eleições que aconteceram alguns
meses depois, PSD e CDS, «estavam lá a espreitar». «A direita vitoriosa explorou-a e foi quem mais ganhou com essa manifestação»,
defende Maltez.
«Os grandes aproveitadores não foram os jovens organizadores, que até foram modestos, sempre, na
sua intervenção. Quem ganhou mais foi Passos Coelho e Paulo Portas», conseguindo que um «movimento à portuguesa gerasse uma
alteração eleitoral», sustenta.
Balanço dos fundadores
A manifestação de 12 de Março do ano passado,
que encheu a Avenida da Liberdade, em Lisboa, sobressai no balanço feito à agência Lusa pelos quatro fundadores do movimento,
que comemora um ano no domingo.
Apesar de terem originado a maior concentração popular ocorrida nas últimas décadas
em Portugal e de se congratularem com isso, o grupo de amigos que se conheceram na faculdade faz um balanço em tom negativo
do que aconteceu no país desde que, a 5 de Fevereiro de 2011, deram o tiro de partida do movimento com a abertura da respectiva
página na rede social Facebook.
João Labrincha, um dos fundadores, diz que o 12 de Março foi «uma espécie de canto
de cisne da democracia», já que as pessoas pensaram que ao ir para rua deixariam claro que queriam uma mudança, mas acabaram
por «perceber que não foram ouvidas e foram completamente ignoradas» pelos políticos, que «fizeram o contrário do que lhes
pediam».
A assinatura do memorando com a troika e o «fim do pacto social», que veio facilitar os despedimentos, são
realçados pelo activista, a que a colega Paula Gil junta a «subida ao poder do Governo de coligação CDS-PP/PSD» e a austeridade
que decretou.
Alexandre de Sousa Carvalho, quando olha para o último ano, encontra «um povo a ver-se grego com tantas
e tão injustas medidas de austeridade».
Efeito positivo da movimentação social que originaram foi a colocação na
agenda nacional de problemas como o desemprego e a precariedade laboral, como afirma António Frazão, o quarto dos ex-colegas
do Curso de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra que decidiram fundar o movimento Geração à Rasca.
O
surgimento de «uma cada vez maior bola de neve da cidadania democrática» é uma das perspectivas positivas encontradas no processo
por Alexandre Carvalho, que gostaria de ver «enterrada» a ideia dos portugueses como «povo de brandos costumes e apático».
Uma
questão quase unânime entre os quatro é a de que, se pudessem recuar no tempo, teriam promovido a recolha de assinaturas naquele
sábado de Março para levar ao Parlamento o projecto da Iniciativa Legislativa Cidadã da lei contra a precariedade.
A
assinatura dessa proposta «pelas 500 mil pessoas que saíram à rua» em todo o país «teria demonstrado a força que todos temos
numa democracia» e reforçaria uma ideia: «Somos nós que empoderamos o estado e não o contrário», sublinha Paula Gil.
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