Os media portugueses não deram esta semana qualquer tipo de destaque às situações tensas e complexas que se vivem em Espanha e no Brasil, como se os problemas políticos e sociais dos dois países não tivessem grande impacto na vida dos portugueses.

Apesar de tantas vezes serem referidos como nuestros hermanos (a Espanha) ou “país irmão” (o Brasil), a verdade é que a suposta fraternidade não tem correspondência na atenção mediática. Com raras exceções – de que o impeachment de Dilma Rousseff foi exemplo – não se dá na comunicação social portuguesa grande atenção ao único país com que Portugal tem fronteira, nem ao maior país falante de português.

No caso de Espanha, parece irrelevante o facto de se irem realizar eleições legislativas a 26 de junho, porque após a votação de 20 de dezembro passado, os partidos mais votados (PP, PSOE, Ciudadanos e Podemos) não conseguiram estabelecer nenhum tipo de acordo para governar, apesar de variadas tentativas.

Espanha está prestes a entrar em campanha eleitoral, mas as sondagens quase diárias não indicam nada de bom. As possibilidades de coligação mais óbvias (PP-Ciudadanos ou PSOE-Podemos, que agora concorre com a Izquierda Unida) não conseguem os 176 lugares mágicos que dão a maioria no parlamento. Assim, parece que os seis meses em gestão corrente se poderão transformar num ano. Como Espanha é o terceiro maior parceiro comercial de Portugal, é impossível imaginar que não haverá consequências negativas do lado de cá da fronteira.

Em relação ao Brasil, o circo do impeachment de Dilma, misturado com o mega escândalo de corrupção “Lava-Jato”, teve atenção incomum dos media portugueses. Mas, mal a presidente caiu, também o Brasil desapareceu dos destaques. 

Os escândalos e a contestação pública acontecem todos os dias no Brasil. Mas os ministérios eliminados pelo ex-vice e atual presidente, Michel Temer, as nomeações controversas, as primeiras medidas quase ditatoriais e o furacão de manifestações parecem não existir, se olharmos para os destaques dos media portugueses.
Pelos vistos, para os portugueses, Espanha e Brasil estão mais unidos entre si do que a Portugal. Pelo menos no desinteresse coletivo.


Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.