“As eleições são sobre quem vai votar mas também muito sobre quem não vai votar”. 

MICHELLE OBAMA, sobre a importância da mobilização no resultado destas eleições

 

“Todos os progressos que fizemos estão em jogo nesta eleição. O meu nome pode não estar nos boletins de voto, mas o nosso progresso vai lá estar. A tolerância vai estar nos boletins de voto. A democracia vai estar nos boletins de voto. A  justiça vai estar nos boletins de voto”

BARACK OBAMA, 19 de setembro de 2016, discurso no Congressional Black Caucus

 

Faltam 48 dias para as eleições presidenciais nos EUA e, a partir de agora, começa a valer mesmo quase tudo.

Donald Trump, o mesmo que liderou esse bizarro movimento dos‘birthers’, que durante meses a fio conseguiu espaço no ‘mainstream media’ baseado numa ideia factualmente errada (a de que Barack Obama não teria nascido em território americano e, como tal, não poderia ser Presidente dos EUA), reconheceu que Barack, afinal, nasceu mesmo na América… ‘ponto final’.

Fê-lo num comício, sem estar sujeito a contraditório nem ninguém que lhe exigisse mais explicações. E tratou, em conjunto com a sua campanha, de passar a ideia de que não teria sido ele, mas sim… Hillary (!) a lançar esse movimento dos ‘birthers’ (supostamente, no auge da disputa em 2008 com Obama pela nomeação democrata).

Rapidamente o campo democrata retaliou e até Bernie Sanders, indignado, saiu em defesa da adversárias nas primárias de 2016, dizendo que “o que Trump está a fazer neste tema é patético e tem que ser denunciado”.

A verdade é que este parece ser mais um episódio em que Trump consegue resistir muito bem ao ‘reality check’, numa espécie de reversão dos critérios de verdade.

Logo a seguir a ter sentenciado que Obama, afinal, nasceu mesmo nos EUA, Donald passou para questões económicas, mostrando que, nesta fase da campanha, está muito mais focado nesse capítulo.

Tudo, aparentemente, integrado numa aposta da campanha do nomeado republicano no sentido de apresentar um Trump mais razoável, mais aceitável, mais ‘presidenciável’, que, de resto, até já nem embarca nessa ideia um pouco perturbada de pôr em causa um facto objetivo e facilmente comprovável, como um local de nascimento de um Presidente dos EUA.

Enquanto isso, a campanha entra na sua fase decisiva e vários sinais apontam para que o equilíbrio e a incerteza poderão manter-se até ao final.

Hillary perdeu gás nas sondagens nos dias a seguir ao episódio de saúde nas cerimónias de 11 de setembro, mas os dados mais recentes apontam para que já está a recuperar boa parte do terreno perdido: sondagem NBC News/Survey Monkey, com mais de 13 mil inquiridos e feita entre 12 e 18 de setembro (abrange, assim, toda a semana pós incidente de 11 de setembro) dá cinco pontos de vantagem a Hillary sobre Trump (46/41).

Donald tem-se mostrado forte em dois dos estados mais influentes para o resultado final (Ohio e Florida) e isso tem gerado a ideia de que pode até estar perto de assumir a liderança da corrida.

E o republicano tentou capitalizar o sentimento de insegurança causado pelos três episódios supostamente relacionados com terrorismo, ocorridos nos últimos dias no Minnesota, Nova Iorque e Nova Jérsia.

Mas a verdade é que Hillary continua sólida em terrenos como a Pensilvânia, o Michigan, o Wisconsin ou a Virgínia. E se vencer esses quatro estados, mantendo as costas e vantagem nos estados de forte componente latina do sudoeste (Colorado, Nevada, Novo México) até pode dar-se ao luxo de perder o Ohio e a Florida e, mesmo assim, chegar à Casa Branca.

As contas para os 270 Grandes Eleitores continuam mais simples de fazer para a democrata do que para o republicano. E sondagem Monmouth libertada terça-feira dá nova recuperação de Hillary na Florida (46/41), desmontando assim a tese de que Trump estaria a descolar no ‘sunshine state’.

Outro dado que pode favorecer Hillary: George HW Bush, o 41.º Presidente dos EUA, ainda não o confirmou em público, mas um «tweet» de Kathleen Hartington, filha de Bobby Kennedy, acompanhado de foto com Bush pai, lançou o tema (“o presidente disse-me que vai votar em Hillary Clinton!”).

Fontes próximas do penúltimo presidente republicano adiantaram, posteriormente, à CNN que o sucessor de Reagan na Casa Branca, e que curiosamente perdeu a reeleição para Bill Clinton em 1992, conta mesmo votar em Hillary.

A confirmar-se terá caráter inédito: não há memória de um antigo presidente dar apoio ao nomeado do partido rival.