Já não há presidentes como antigamente. A lei da limitação de mandatos acabou com eles, os efetivos das Câmaras, das Juntas, os chamados "dinossauros" do poder local. Há casos, no entanto, que, ora empurrados pela vontade, ora empurrados pela popularidade, conseguem regressar à frente das autarquias.

Este ano, concorreram às eleições deste domingo 38 ex-autarcas, que tentaram reconquistar uma Câmara perdida, uma Câmara vizinha (ou até noutro distrito) ou uma reeleição (no caso de já terem regressado em eleições anteriores). Porém, a experiência e antiguidade não é tudo e os eleitores não foram meigos com os que tentaram voltar: apenas oito dos 38 conseguiram o lugar de presidente.

Entre independentes e candidatos de partidos não se consegue desenhar um caminho padrão para chegar à cadeira. Tudo depende dos eleitores locais e cada caso é um caso. Isaltino Morais, Valentim Loureiro e Narciso Miranda, por exemplo, são veteranos que nesta campanha foram muitas vezes colocados "no mesmo saco" pelo regresso à política, mas apenas um conseguiu, de facto, regressar.

E de que maneira. Enganou-se quem pensava que a pena de prisão efetiva por fraude fiscal e branqueamento de capitais ditaria o fim da sua vida política. Isaltino Morais concorreu à Câmara Municipal de Oeiras, a mesma que presidiu entre 1985 e 2002 e entre 2005 e 2009, e ganhou com quase 42% dos votos, mais do dobro que o segundo candidato mais votado. Depois de uma campanha recheada de polémicas e de até ver a lista que encabeça chumbada pelo tribunal, derrotou o principal oponente Joaquim Raposo, também ele um veterano das autárquicas - foi 16 anos presidente do concelho vizinho da Amadora.

Narciso Miranda, candidato à Câmara Municipal de Matosinhos - que presidiu entre 1976 e 2005, também conquistou muito eleitores (16,19%), mas não chegaram para o passar para o lugar da frente do comboio com estação terminal na Câmara. Ficou em segundo, com dois vereadores, muito atrás de Luísa Salgueiro, do PS, que com 36,36% dos votos assegurou cinco mandatos. Também Valentim Loureiro, 20 anos presidente de Gondomar (1983 e 2013), conseguiu milhares de votos (19,90%), mas insuficientes para bater o PS (45,52%). O veterano acabou por ficar em segundo, com dois mandatos.

Valentim não foi o único com 20 anos, ou mais, de experiência a concorrer e a falhar o grande objetivo. Por esse país fora há outros grandes exemplos. Em Elvas, José Rondão Almeida (1993-2013) perdeu para o PS. Em Belmonte, Amândio Melo perdeu para António Rocha, também do PS. Carlos Pinto, 20 anos presidente da Covilhã pelo PSD, ficou em segundo, atrás de Vítor Pereira do PS. Narciso Mota, que concorreu com o lema Pombal Humano, não conseguiu regressar à cidade que dirigiu durante 20 anos. Carlos Pereira não recuperou a câmara de Santana (Madeira), assim como Pedro Namorado Lancha não conseguiu recuperar a de Fronteira (Portalegre).

O PSD não teve uma noite feliz no que diz respeito aos candidatos veteranos. Entre outros nomes, saltam à vista três "Fernandos": Fernando Marques, presidente da Câmara de Ansião entre 1989 e 2009, Fernando Costa, presidente das Caldas da Rainha durante 27 anos e que agora tentava Leiria, e Fernando Seara, que atingiu o limite de mandatos em Sintra e agora tentava chegar a presidente da Câmara de Odivelas. Perderam todos para candidatos socialistas.

Noite infeliz também para o Bloco de Esquerda que não conseguiu recuperar a Câmara de Salvaterra de Magos, que Ana Cristina Ribeiro liderou entre 2001 e 2013.

Carlos Teixeira, presidente da Câmara de Loures durante 12 anos, tentou Lisboa com o apoio do PDR e JPP, mas na capital não conseguiu nem 0,5% dos votos.

Nesta noite autárquica, há poucos veteranos com quem se pode aprender a ganhar eleições. Do lado do Partido Socialista há dois nomes: José Maltez, que conseguiu vencer na Golegã, onde já tinha sido presidente entre 1997 e 2013, e Manuel Machado, presidente de Coimbra entre 1989 e 2001 e desde 2013. Este domingo, Manuel Machado derrotou um outro ex-autarca, Jaime Ramos (três mandatos em Miranda do Corvo). 

No que diz respeito aos vencedores do lado do PSD há mais três nomes a registar: Álvaro Amaro, que venceu na Guarda, depois de no passado já ter atingido a limitação de mandatos em Gouveia, Francisco Amaral, que ganhou pela segunda vez a Câmara de Castro Marim, depois de 20 anos na de Alcoutim, e Ribau Esteves, eleito pela segunda vez em Aveiro, depois de já ter estado entre 1997 e 2013 à frente de Ílhavo. Este último, não só ganhou sempre, como ganhou sempre com maiorias absolutas.

Apenas a CDU tem outros candidatos que conseguiram regressar à presidência de uma Câmara. Carlos Pinto de Sá, reeleito este domingo em Évora, já tinha cumprido cinco mandatos em Montemor-o-Novo até 2013. Esse foi o ano em que outro candidato do partido, Vítor Proença, ganhou pela primeira vez a Câmara de Alcácer do Sal, depois de 12 anos à frente de Santiago do Cacém (2001 e 2013).