O diretor de informação da RTP, Paulo Ferreira, diz que abandona o cargo devido a uma «decisão pessoal» que resulta de uma leitura sobre o que «melhor defende os interesses gerais da RTP» e da informação da estação.

«A minha saída destas funções resulta de uma decisão pessoal, sustentada na leitura que faço sobre o que melhor defende os interesses gerais da RTP e, em particular, os da fundamental área da informação», diz Paulo Ferreira numa carta enviada ao presidente do conselho de administração da RTP, Alberto da Ponte, e a que a Lusa teve acesso.

Na missiva enviada à administração, Ferreira diz que a renovação da direção de informação da RTP «será um passo importante no reforço das condições de estabilidade e de recuperação da capacidade de execução, decisivas no atual contexto da empresa e dos desafios que permanecem».

Agradecendo a «confiança pessoal e institucional permanente», que se manteve até ao «último dia», o jornalista frisa que o «desenvolvimento sistemático da criatividade e inovação nos conteúdos» da RTP deve ser um dos «eixos fundamentais de evolução, sustentabilidade e diferenciação do serviço público».

Paulo Ferreira destaca também a «total autonomia de decisão editorial» que diz ter sido dada «sem qualquer reserva» pela administração da empresa à sua direção de informação, «num respeito exemplar pelas regras e de acordo com as melhores práticas das empresas de comunicação social».

Num outro texto, dirigido à redação da RTP, e ao qual a Lusa teve também acesso, o jornalista enaltece que a empresa «tem as melhores condições para praticar um jornalismo independente, isento de interferências dos poderes, sejam eles quais forem», e «utiliza essas condições com profissionalismo e responsabilidade».

«Estão aqui alguns dos melhores profissionais com quem tive a honra de trabalhar em toda a minha carreira, que já não é pequena», diz no texto.

Sindicatos dizem que saída era esperada

Os sindicatos da RTP disseram hoje que a saída de Paulo Ferreira de diretor de informação da RTP «não é inesperada» e resulta de «polémicas internas» e editoriais sobre avaliações de desempenho e rescisões de contratos de trabalho.

«A notícia do seu pedido de demissão foi só uma questão de "timing"», afirmou Clarisse Santos, porta-voz da plataforma dos sindicatos da RTP, à Lusa.

Em outubro a redação da RTP/TV havia determinado, em plenário, a perda de confiança na direção de informação, por esta ter aceitado «participar num processo ilegítimo», que culminará «na elaboração de listas de mobilidade», foi então anunciado pelo Conselho de Redação.

Pouco depois, no começo de novembro, os sindicatos afetos à RTP pediram a demissão de Paulo Ferreira devido a declarações que entenderam violar «o código de ética» sobre o processo de rescisões voluntárias no operador de televisão estatal.

O então diretor, em declarações reproduzidas no «Dinheiro Vivo», aludiu que os trabalhadores da RTP que rescindiram voluntariamente eram as pessoas «mais talentosas», enquanto as que ficam «acabam por ser, muitas vezes, as menos capazes».

Decisão «peca por tardia»

A Comissão de Trabalhadores da Rádio Televisão Portuguesa considerou, entretanto, que a demissão do diretor de informação da estação pública, Paulo Ferreira, já «era esperada» e apenas «peca por tardia».

«A demissão era esperada porque alguém que perde a confiança da sua redação tem que sair e só peca por tardia», disse à Lusa Camilo Azevedo, da Comissão de Trabalhadores.

Para Camilo Azevedo, esta nova nomeação também não dá garantias de «desgovernamentalização» da televisão pública anunciadas pelo ministro da tutela, Poiares Maduro.