O fundador do Banco Privado Português (BPP), João Rendeiro, arguido no caso Privado Financeiras, disse esta terça-feira em tribunal que, caso o investimento nas ações do BCP tivesse corrido bem, os clientes teriam dobrado o seu dinheiro em três anos.

«Se as coisas corressem bem no BCP [Banco Comercial Português], os acionistas receberiam perto de 30% ao ano. Em três anos dobrariam o capital», afirmou o ex-banqueiro perante o coletivo de juízes liderado por Nuno Salpico.

Rendeiro explicava a opção que tomou, como responsável máximo da Privado Financeiras - veículo de investimento que apostava nos títulos do BCP - em acompanhar o aumento de capital do banco fundado por Jardim Gonçalves, realçando que «uma decisão de investimento é uma gestão de expectativas».

Segundo o ex-banqueiro, «as expectativas de futuro, com base nas informações passadas pela própria administração do BCP, eram positivas».

Dada a diferença entre o preço médio por ação do BCP da carteira que estava nas mãos da Privado Financeiras e a cotação do banco no mercado, no início de 2008, muito abaixo, Rendeiro disse que fazia sentido acompanhar a operação de aumento de capital do BCP.

«O racional [para os clientes] era protegerem o seu investimento e irem ao aumento de capital» do BCP, salientou.

Admitindo que estava otimista face ao futuro do BCP, numa altura em que se discutia uma fusão com o Banco BPI, tendo também por base a informação passada pela administração do BCP no prospeto do aumento de capital, a par das notas de análise que recomendavam a participação na operação, Rendeiro vincou que o seu passado nos mercados sempre se pautou por ir contra a corrente.

«Nos mercados há um instinto de manada, em que os otimistas e pessimistas se movem consoante os instintos», sublinhou.

Rendeiro, tal como havia feito na primeira sessão do julgamento, que arrancou na semana passada, apontou para outros veículos de investimento que liderou e que apostavam noutros títulos para ilustrar a sua explicação em tribunal.

«Em 2007, vendemos as ações da Jerónimo Martins que tínhamos com ganhos de 200 por cento. Mas, se tivéssemos esperado até 2012, os lucros seriam de 900%», argumentou.

Segundo o arguido, isto prova que «mesmo fazendo uma grande operação, pode não se fazer uma operação ainda melhor».

«Ninguém se queixou por se ter decidido vender em 2007 e não em 2012, quando ganhariam quatro vezes mais», salientou.

A parte final da sessão de hoje, a segunda deste julgamento, ficou marcada por uma divergência entre as datas avançadas por Rendeiro e pelo Ministério Público acerca da realização de uma assembleia geral de acionistas da Privado Holding (dona de 100% do BPP).

Segundo Rendeiro, essa reunião onde foram apresentados vários indicadores sobre a situação financeira da Privado Financeiras (cujo núcleo duro de clientes coincidiam com os acionistas da Privado Holding, de acordo com o antigo presidente do BPP), ocorreu no início de 2008, antes da operação de aumento de capital do BCP.

Porém, o MP insistiu que a mesma ocorreu em abril de 2008, após o aumento de capital do BCP, pelo que os clientes não teriam tido acesso a toda a informação sobre a situação da Privado Financeiras antes de decidirem se iam ou não participar no aumento de capital do BCP.

A ocultação de informação sobre a Privado Financeiras é uma das peças-chave da acusação neste processo-crime, pelo que a questão ganha relevância.

«As assembleias gerais da Privado Holding eram uma festa. As pessoas gostavam de se reunir», revelou Rendeiro, frisando que «ao ler as contas da Privado Holding tiveram conhecimento de detalho do contrato entre a Privado Financeiras e o JP Morgan».

Contudo, segundo a acusação, tal aconteceu tardiamente, pelo que os clientes não tinham todos os dados disponíveis antes da operação de aumento de capital do BCP.