O economista Paul de Grauwe entende que Portugal cometeu o «erro» de ser o melhor aluno da troika, quando a economia estaria melhor se assim não fosse.

«O governo português fez o grande erro de tentar ser o melhor da turma no concurso de beleza da austeridade. Não havia razão para Portugal fazer isso, podia não ser o melhor da turma, podia ser mesmo o pior e isso seria melhor para economia», considerou em entrevista à Lusa o economista belga, para quem Portugal tinha de levar a cabo medidas para reduzir a despesa, mas ao longo de mais anos.

Até economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), afirmou, já perceberam que não é possível «fazer a austeridade toda ao mesmo tempo», enquanto na Europa os líderes continuam imutáveis.

«Portugal e outros países do Sul da Europa deviam unir-se e dizer que a maneira como os tratam não é aceitável. Quando Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha levam a cabo medidas de austeridade, os outros países do Norte da Europa deviam fazer o inverso e estimular a economia. Vocês têm influência na Comissão Europeia, mas não a usam», afirmou.

Para o economista, se os países com contas públicas mais fortes fomentassem a expansão, isso contrariaria a contração orçamental dos países da periferia, equilibrando a economia europeia.

Grauwe defende que toda a Europa devia estar comprometida em fazer os países como Portugal saírem da recessão económica, já que o endividamento não é só culpa destes.

«A Zona Euro tornou-se um sistema em que a nações creditícias mandam. Mas a responsabilidade da crise não é só dos devedores, mas também dos credores. Por isso, a Comissão Europeia devia intervir no interesse dos credores e também dos devedores», considerou.

Paul de Grauwe rejeitou que deve ser colocado um limite ao défice e endividamento da Constituição portuguesa, considerando que «não faz qualquer sentido», já que haverá sempre períodos em que os países têm de aumentar o seu endividamento para acomodar as crises cíclicas e proteger os cidadãos.

«O capitalismo é um sistema fantástico, mas muito instável, que produz altos e baixos, períodos de otimismo e pessimismo, e nos baixos o Governo tem de juntar as peças e os défices necessariamente aumentam. Precisamos de Governos que protejam os cidadãos, que os ajudem [quando estão mal]. Se não o fizerem, a legitimidade dos Governos fica em causa», explicou.

O economista considera que Portugal não deverá conseguir fugir a uma reestruturação da dívida e que não é masoquismo os portugueses discutirem este tema, mas continuarem a punir-se a si mesmos com mais austeridade.

«Portugal tem tanta austeridade que a dívida se tornou insustentável, algo tem de ser feito. Não acho que consiga sair do problema hoje sem uma reestruturação da dívida», disse, acrescentando que o Presidente da República, Cavaco Silva, está a «fechar os olhos à realidade» quando considerou que é «masoquismo» dizer que a dívida portuguesa não é sustentável.

«Claro que se deve falar disso. Estão a transferir receitas para os estrangeiros, que sentido faz isso?», questionou o economista, para quem é «quase masoquista» os portugueses «punirem-se a si mesmos».

Na sua opinião, «é difícil entender como pode o Governo magoar a população e sentir-se orgulhoso disso».

O economista lembrou ainda que há uns anos Portugal era um país solvente. No entanto, as políticas de austeridade levaram à recessão económica e aumentaram de tal forma o endividamento que agora corre o risco de não conseguir pagar a sua dívida.

«Um novo programa de austeridade vai empurrar Portugal para a insolvência», antecipou, considerando-a «inevitável» quando o país «foi posto numa austeridade tão intensa que se tornou contra produtiva» para a economia.

«Dizem aos portugueses que têm de fazer mais sacrifícios. Para quê? Para pagar a dívida aos países ricos do Norte [da Europa]. Isto será explosivo, os portugueses não vão aceitar isso indefinidamente», antecipou.